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sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Dilúvio foi Universal ou Local?

Outra questão ligada ao Dilúvio se refere a sua abrangência: Foi o dilúvio Local ou Universal? Quando se faz essa pergunta não se propõe ignorar o relato das escrituras e buscar em fontes alternativas as respostas para essa questão. A intenção é observar o que dizem as escrituras sobre o assunto.
Uma nota introdutória deve ser levantada aqui: Quando se usa a expressão “Local” para se definir o dilúvio não se pretende afirmar apenas o local onde se encontrava Noé e sua família. Diferentes propostas já foram apresentadas para o uso desse termo que abrange desde o mundo conhecido de Noé até um Dilúvio semi-Universal, incluindo regiões mais abrangentes do globo, entretanto, sem cobri-lo totalmente. Em defesa desse tipo mais abrangente alguns cristãos preferem o título de “Universal” no sentido que inclui todos os seres humanos, em contraste com o Global, que inclui todo o globo.
Em nossa observação, usamos o termo Universal para descrever a idéia que defende que todo o globo foi coberto pelas águas e todos os seres humanos exceto a família de Noé foram aniquilados; já o termo Local, se refere a uma região do globo grande o suficiente para aniquilar todos os seres humanos, mas não todo ele. Vamos a análise.

1.         Universal:

Essa é, sem sombra de dúvidas, a versão mais aceita e recebida no cristianismo. Em nossa alfabetização bíblica nas escolas dominicais temos sido ensinados desse modo a anos. Os cristãos em geral adotam essa posição e não sem evidências, pois as escrituras parecem favorecer essa interpretação largamente, em função de sua linguagem universalista nesse texto (cf. veja a quantidade de “tudo”, “todo”, “todos” usados nesse relato). Observe alguns pontos favoráveis:

a. A humanidade já teria ocupado toda a terra:
Se toda a humanidade já ocupasse toda a terra nesse momento histórico, então, o dilúvio deve ser necessariamente universal. A favor dessa idéia, Gênesis afirma que os homens já haviam enchido a terra: Em primeiro lugar, os homens estavam se multiplicando por todas as regiões da terra: “E aconteceu que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas” (Gn.6.1). Calvino, falando sobre esse verso, atestou: “Isso aconteceu como efeito da bênção (Gn.1.28), mas a corrupção humana abusou e perverteu essa bênção e a transformou em maldição”. Poucos são os comentaristas que rejeitam a idéia da maldade humana como causa do dilúvio, e Calvino demonstra isso bem. Entretanto, note que o texto nos diz que a multiplicação do homem era sobre a face da terra, como uma forma universal de apresentar a expansão da humanidade. Portanto, se os homens ocupassem todo o globo nessa ocasião, o dilúvio era universalmente necessário.
Em segundo lugar, a linguagem de Gênesis sugere que a maldade do homem já era vista em toda a terra: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn.6.11). Ou seja, a expansão da humanidade povoou a terra de tal modo que a terra era vista como corrompida e a violência humana havia enchido toda a terra. Essa expansão da humanidade caída está em conformidade com o que se espera dela: “Quando os perversos se multiplicam, multiplicam-se as transgressões” (Pr.29.16).

b. Todas as montanhas foram cobertas:
O texto de Gênesis apresenta uma informação interessante sobre as montanhas que precisa ser analisada: “Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu. Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos” (Gn.7.19, 20). A descrição aqui é bem abrangente e na opinião dos defensores dessa visão, o texto parece não oferecer margem para outra interpretação.
Matthew Henry é um desses que parece defender esse ponto aqui, e sobre ele atesta: “as águas subiram tão alto que não apenas a planície fora inundada, mas para garantir que ninguém pudesse escapar, o topo das mais altas montanhas foram submersas – quinze côvados, ou seja, sete metros e meio, de modo que esperar a salvação nos morros e montanhas era vã [1]”. Provavelmente a citação sobre a possibilidade de salvação encontrada nas montanhas seja uma forma de Henry rejeitar a visão da mitologia grega do Dilúvio de Deucalião, que afirmava que todos os homens morreram, exceto os que subiram ao topo das montanhas[2].
Outra forte evidência desse fato encontra-se no capítulo 8 de Gênesis: “No dia dezessete do sétimo mês, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate. E as águas foram minguando até ao décimo mês, em cujo primeiro dia apareceram os cumos dos montes” (Gn.8.4-5). Falando sobre esse texto Krell atesta: “a profundidade da água favorece um dilúvio universal. O Monte Ararate, no qual a arca veio descansar, é superior a 17 mil pés de altitude, e as águas estavam mais de vinte pés mais alto do que todas as montanhas[3]”.

c. Todos os homens foram mortos:
Um fato que não há contra-argumentos é que todos os homens, exceto a família de Noé, foram mortos no dilúvio. Observe que essa tinha sido a promessa de Deus ao enviar o Dilúvio: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn.6.7). Sobre esse texto Barnes afirma: “Este testemunho solene para a condenação universal [a queda] não tinha deixado qualquer impressão salutar ou duradoura sobre os sobreviventes. Mas agora uma destruição geral e violenta é atinge toda a humanidade, é  um monumento perpétuo da ira divina contra o pecado, para todas as futuras gerações da única família salva[4]”.Toda a humanidade é alcançada com o dilúvio, e como os defensores dessa visão defendem que os homens ocupavam toda a superfície da terra, era necessário que o dilúvio fosse universal.
Essa promessa feita por Deus foi levada à cabo, observe: “Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem” (Gn.7.21; cf.23). A terra fora de tal forma devastada e a humanidade inteira destruída que a ordenança divina dada a Adão precisou ser reafirmada com Noé e sua família: “Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra” (Gn.9.1).

d. Todos os animais foram mortos:
Um detalhe observado acima, mas ainda não comentado é que todos os animais, excetos os que vivem nas águas, morreram no dilúvio. Isso levanta um importante fato: Ainda que os homens não tivesse povoado cada uma das áreas do globo, os animais já o poderiam ter feito. Se todos os animais morreram no dilúvio, ele foi universal. Note a linguagem universalista dos textos: Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn.6.7).  Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem” (Gn.7.21).
Linguagem ainda mais abrangente vemos nesse verso: “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá” (Gn.6.17). Ao comentar esse verso, Gill atesta que o texto fala sobre “todos os seres vivos, homens e mulheres, as feras e o gado da terra, e todo o réptil sobre ela e as aves do céu, mas principalmente o homem, e os outros por sua causa[5]”.

e. Toda a Terra foi devastada:
A promessa de Deus em punir a terra não incluía apenas os seres vivos, mas também o planeta terra: “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra (Gn.6.13). Sobre esse texto Keil & Delitzsch afirmam: “Porque toda a carne havia destruído a terra, ela deveria ser destruída com a Terra por Deus[6]”. Até mesmo Pedro parece defender a idéia de um juízo para a terra como um todo quando diz: “Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus, pela qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água” (2Pe.3.6). A linguagem universal, parece se repetir em Isaías, observe: “Porque isto é para mim como as águas de Noé; pois jurei que as águas de Noé não mais inundariam a terra, e assim jurei que não mais me iraria contra ti, nem te repreenderia” (Is.54.9). Essa leitura, certamente é um reflexo do próprio relato de Gênesis: “Estabeleço a minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra” (Gn.9.11).

2.         Local:

Os críticos da visão de um dilúvio local geralmente se interpõem por afirmar que tal opção é na verdade uma tentativa de se adaptar as escrituras ao conhecimento científico dos nossos dias. Segundo eles, essa visão é uma tentativa de “modernização” das escrituras cujo objetivo principal é remover barreiras intelectuais para a mentalidade contemporânea aceitar a palavra de Deus. Eles também afirmam que diante da linguagem universalista da passagem tal conceito fica inviável e que introjetar informações ao texto é necessário para se defender tal posição. Em suma, os críticos a essa visão defendem que não é possível que tal interpretação seja possível.
Mas, será isso mesmo verdade? Nossa análise assume aqui um caráter investigativo do texto, em primeiro lugar, para verificarmos se as críticas são de fato verdadeiras, e verificar a possibilidade de tais críticos estarem equivocados. Vamos à análise:

a. O uso das palavras “kol erets”:
O primeiro debate está relacionado com a expressão hebraica “kol erets”, que é traduzida diversas vezes no relato de Gênesis como “toda terra”. O que percebemos quando observamos a expressão em uso na pena de Moisés percebemos que nem sempre a intenção do autor é que o termo seja realmente tão abrangente como supõe os defensores do dilúvio universal. Por isso, abaixo transcrevemos algumas observações, em demonstração de que a expressão “kol erets” também é usada com outras ênfases, observe
  • Em referência específica: No mesmo livro podemos encontrar a expressão com sentido muio mais restrito e específico para “toda a terra”: “O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia toda terra de Havilá, onde há ouro (…)E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe” (Gn.2.11, 13). Nesses versos fica evidente que a expressão “toda terra” não significa apenas a terra no sentido universal, mas em sentido restrito (cf. Gn.1.29; 17.8; 41.41, 43, 55; 45.20; Ex.9.9; 10.14, 15; 34.2; Dt.34.1).
  • Em referência a pessoas: Eventualmente o termo pode ser usado para descrever pessoas e não lugares: “Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn.18.25). Certamente aqui a referência é ao uso da justiça para com a humanidade e não com o Planeta Terra por assim dizer. Fato similar acontece em Babel: “Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o SENHOR a língua de toda a terra, e dali os espalhou o SENHOR sobre a face de toda a terra” (Gn.11.9). Nesse verso os dois sentidos são observados: (1) Trata-se da confusão das línguas dos povos (2) enquanto Deus os espalhava pela superfície do Planeta Terra. Observar que essa expressão pode ter essa conotação ainda na pena de Moisës, nos faz repensar o modo como entendemos tais expressões no texto de do Dilúvio. Um uso interessante desse tipo é ainda visto em Gênesis: “E toda a terra vinha ao Egito, para comprar de José, porque a fome prevaleceu em todo o mundo” (Gn.41.57). Certamente não podemos esperar outra interpretação aqui, senão que o texto fala sobre pessoas. Esse uso é comum na literatura mosaica e no Antigo Testamento (Gn.19.31; Ex. 19.5; cf. Js.23.14; 1Sm.144.25; 2Sm.15.23; 1Re.2.2; 1Cr.16.14; 16.23; Sl.33.8; 66.1; 66.4; 96.1, 96.9; 98.4; 100.1; 105.7; Is.14.7).
  • Em referência a um local restrito: Eventualmente a expressão pode ser usada para descrever porções de toda a terra, e não propriamente a terra toda: “Acaso, não está diante de ti toda a terra? Peço-te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda” (Gn.13.9). Nesse verso o uso é claramente restrito e não se pode pensar diferente aqui. Em outros textos do Pentateuco esse sentido é óbvio: “Então, disse: Eis que faço uma aliança; diante de todo o teu povo farei maravilhas que nunca se fizeram em toda a terra, nem entre nação alguma, de maneira que todo este povo, em cujo meio tu estás, veja a obra do SENHOR; porque coisa terrível é o que faço contigo” (Ex.34.10; cf. Lv.25.9, 24; Jz.6.37; 1Sm.13.3; 2Sm.18.8; 24, 8; 1Re.10.24; 1Cr.14.17; 1Cr.22.5; 2Cr.9.28 – veja também: Ez.9.9).
  • Conclusão: Diante do uso da expressão precisamos exercer certo cuidado quando lemos o texto do dilúvio, pois é possível que Moisés não esteja dando uma ênfase tão abrangente quanto pensam os defensores do dilúvio universal. Mas, temos alguma indicação na narrativa do dilúvio que poderia sugerir que o Dilúvio é Local e não Universal?

b. O testemunho do próprio texto:
É bem verdade que existem algumas observações importantes a serem feitas no texto do dilúvio que podem confirmar que o Dilúvio narrado nas escrituras não fala de um fato universal, mas local, ainda que esse local inclua a grande parte do globo.
  • O uso de erets: No relato do dilúvio alguns usos do substantivo referente a terra se referem ao planeta, observe: “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra” (Gn.6.11,12). Note que a idéia de uma terra corrompida aqui certamente fala sobre a humanidade e não sobre o planeta. No verso 12 fica evidente a equiparação entre a idéia da terra corrompida e de todo ser vivente como um modo de viver corrompido. Essa idéia é importante, pois apresenta que o foco do motivo do dilúvio é restrito à humanidade e não a todo o planeta. Assim, não é exigido que o dilúvio atinja toda a terra. Outro detalhe importante, é que a aliança que Deus faz como Noé inclui toda a humanidade: “Disse Deus: Este é o sinal da minha aliança que faço entre mim e vós e entre todos os seres viventes que estão convosco, para perpétuas gerações, porei nas nuvens o meu arco; será por sinal da aliança entre mim e a terra” (9.12, 13). Sobre esses versos, Rich Deem afirma: “Gênesis 6, versículos 11 e 12 nos dizem que a terra estava corrompida, apesar de entendermos este versículo como uma referência ao povo da terra. Da mesma forma, em Gênesis 9:13, o versículo nos diz que Deus fez uma aliança entre Ele mesmo e a terra. No entanto, mais tarde, versos esclarece que a Aliança é entre Deus e as criaturas da terra. O texto de Gênesis estabelece claramente (juntamente com o Novo Testamento) que o julgamento de Deus foi universal em referência aos seres humanos (com exceção de Noé e sua família)[7]
  • O uso de kol: Em algumas ocasiões o uso de “kol” (tr. Todo) no relato do dilúvio não significa “tudo” no sentido mais absoluto. Em algumas ocasiões a referência é à abrangência, mas não à totalidade, observe: “Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra” (Gn.6.13). Observe que embora o dilúvio tenha alcançado toda a humanidade não alcançou a Noé e seus familiares. Por isso, podemos entender que tal afirmação não é absoluta, mas genérica (cf. Gn.6.17, 19). O mesmo aconteceu com o término do dilúvio, quando o texto atesta que o dilúvio teria matado todos os seres viventes, mas isso certamente não incluía a Noé, sua família e os animais da arca (cf. 7.21).
  • O uso de har: O termo hebraico “har” é freqüentemente traduzido por montanha no relato do dilúvio, mas o termo hebraico é um pouco mais abrangente do que isso. Em um texto, seu uso pode ser significativo, observe: “Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu. Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os montes foram cobertos” (Gn.7.19-20). O termo foi corretamente traduzido pela ARA, usando montes ao invés de montanhas. Embora a diferenciação léxica não seja definitiva, certamente inclui a possibilidade de um dilúvio que não tenha submerso o Everest, por exemplo. Alguns autores que se propuseram a medir o Monte Ararate, onde a Arca parou, afirmam que sua altitude é aproximadamente 16.500[8] pés de altura, enquanto as montanhas do Himalaia ultrapassam os 26.000 pés! Por essa razão, é prudente tomarmos os relato de Gn.7.19 como uma expressão retórica. Para explicar esse fato Barnes acresce: “Nenhum monte estava sobre a água dentro do horizonte do espectador humano[9]”.
  • O fim do relato do dilúvio: Duas observações podem ser feitas aqui:
    1. Vento: O autor de Gênesis descreve que as águas do dilúvio foram minimizadas por vento, observe: “Lembrou-se Deus de Noé e de todos os animais selváticos e de todos os animais domésticos que com ele estavam na arca; Deus fez soprar um vento sobre a terra, e baixaram as águas” (Gn.8.1). Não devemos minimizar a idéia de o vento fazer as águas baixarem, mas pensar que na idéia de um dilúvio universal, as águas não seriam escoadas pelo vento, pois não teriam para onde ir. Note que essa é a tônica que o autor de Gênesis dá ao relato, observe: “As águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra e minguaram ao cabo de cento e cinqüenta dias” (Gn.8.3, cf. v.5).
    2. Deserto Universal: Outro detalhe que merece destaque, é que se tomarmos literalmente as declarações sobre o fim do dilúvio, teremos que admitir que o globo sofreu, ainda que temporariamente, da completa ausência de água, observe: “Ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela que fizera na arca e soltou um corvo, o qual, tendo saído, ia e voltava, até que se secaram as águas de sobre a terra (…)Sucedeu que, no primeiro dia do primeiro mês, do ano seiscentos e um, as águas se secaram de sobre a terra. Então, Noé removeu a cobertura da arca e olhou, e eis que o solo estava enxuto (…)E, aos vinte e sete dias do segundo mês, a terra estava seca” (Gn.8.6-7, 13, 14). A mesma ênfase aqui é dada quando o autor narra a abrangência do dilúvio: Portanto, se o dilúvio foi local, é de se esperar que a parte inundada, ainda que ocupe grande parte do globo, secou, e não toda a terra como se esperaria na leitura universal do dilúvio.

c. O Testemunho de outras passagens:
Outras passagens nas escrituras parecem favorecer a idéia de um dilúvio local e não universal, observe:
  • Sl.104.5-9: “Lançaste os fundamentos da terra, para que ela não vacile em tempo nenhum. Tomaste o abismo por vestuário e a cobriste; as águas ficaram acima das montanhas; à tua repreensão, fugiram, à voz do teu trovão, bateram em retirada. Elevaram-se os montes, desceram os vales, até ao lugar que lhes havias preparado. Puseste às águas divisa que não ultrapassarão, para que não tornem a cobrir a terra”. O texto parece apontar para o ato da criação divina, que lançou os fundamentos da terra e a cobriu com água, então elevou os montes e desceu os vales e determinou que as águas não cobrissem a terra novamente. Esse paralelo com a criação parece sugerir que no período da criação toda a terra fora coberta por água, mas após criar as montanhas, um limite foi determinado para que nunca mais as águas cobrissem a terra. Portanto, temos que considerar que o dilúvio não poderia ultrapassar os limites determinados por Deus.
  • Pv.8.27-29: “Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo, quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo, quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os seus limites; quando compunha os fundamentos da terra”. Nesse verso vemos a presença da sabedoria por toda a criação divina, e nesse verso vemos que Deus estabeleceu um limite para as águas dos mares para que não ultrapassassem. Essa é mais uma sugestão de que o dilúvio não teria sido universal.
  • 2Pe.3.5-6: “Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus, pela qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água”. Nesse verso Pedro não diz que todo o mundo havia sido destruído pelo dilúvio, mas que o mundo conhecido naquele tempo fora destruído.
  • Outros: Em outros lugares do Novo Testamento, fica evidente que o propósito do dilúvio era a atribuição da ira divina sobre os homens, e não sobre todo o planeta, observe: “Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do Filho do Homem: comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos” (Lc.17-26-27); “Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb.11.7). Essa informação reforça a idéia de que o mundo em foco para destruição era uma referência ao ser humano e não ao planeta. Portanto, o dilúvio tinha o objetivo de destruir apenas os seres humanos e não submergir o Planeta Terra.

3.         Parecer Pessoal:

Para concluir esse aspecto das nossas considerações sobre o dilúvio temos que admitir que nenhuma das leituras é recebida sem dificuldades. Ainda que outras considerações sobre cada uma das opções analisadas possam ser vistas, é fundamental reconhecer que o aspecto fundamental do dilúvio não é perdido em nenhuma das duas análises: A questão fundamental é a Soberania de Deus no exercício de sua santa e justa Ira contra o pecador e julgamento contra a maldade da humanidade. Tendo dito isso, pretendo levantar algumas considerações sobras as diferentes opções.
As duas análises não foram feitas à exaustão, mas servem como demonstração das diferentes opiniões sobre o assunto. Certamente por isso, temos algumas questões ainda não respondidas em ambas as leituras: Se o dilúvio foi universal, algumas perguntas permanecem sem resposta:
  1. Se o dilúvio foi universal e encobriu o monte Everest, como ficou a respiração de Adão, sua família e dos animais na Arca, uma vez que nessa altitude o ar é extremamente rarefeito?
  2. Por que nos faltam provas geológicas que indiquem esse fato?
  3. Por que razão o foi? Nenhum ser humano jamais habitou nas mais altas montanhas do mundo. Se o propósito do dilúvio era um julgamento contra o homem e os animais, o dilúvio não necessitaria ser universal.
  4. As espécies características de regiões específicas do globo, como coalas, e cangurus (Austrália) foram preservados por Noé? Se sim, como foram capturados?
  5. Se o dilúvio foi universal e todas as espécies de animais foram preservadas, a arca era suficientemente grande para conter todas as espécies existentes?
  6. Se o dilúvio foi universal, para onde escoaram as águas do dilúvio?
Por outro lado, se o dilúvio foi local, algumas questões parecem ficar sem respostas:
  1. Como explicar os textos que sugerem que o dilúvio também foi uma punição para a terra (6.13; 9.11)?
  2. Como evitar a leitura universal em um texto repleto de informações que parecem exigir a idéia de uma catástrofe universal?
  3. Se Deus é o autor do Dilúvio, Ele não poderia tê-lo feito universal, como o texto parece sugerir?
Responder a essas perguntas, não significa resolver os problemas e dilemas de interpretação desse texto, mas de caminhar em direção a uma resposta mais plausível. Evidentemente, o autor desse artigo tem certa preferência pela leitura de um Dilúvio Local, que em nenhum momento se propõe a restringir a ação de Deus, mas de conciliar informações expostas nas escrituras com aquelas encontradas na natureza.

domingo, 13 de junho de 2010

JESUS A JUSTIÇA

A doutrina de Cristo é uma doutrina central no cristianismo: Não é possível falar de Cristianismo sem Cristo. Para fundamentar essa doutrina nada melhor do que recorrer às escrituras como alicerce das nossas convicções sobre Cristo, antes de qualquer doutrina formalizada.
É bem verdade que muitas são as pessoas que tratam da doutrina como anterior as Escrituras e defendem ideais lógicos, mas não verdadeiros diante das escrituras. Esse equívoco percorreu a história do cristianismo, especialmente no que se refere a doutrina da Divindade de Cristo. Diversos movimentos heréticos perverteram as escrituras ao retirar de Cristo qualidades divinas claramente ensinadas pelas escrituras.
Desde cedo esse movimento de perversão da verdade andou paralelamente ao cristianismo outorgado pro Cristo, protegido pelos apóstolos e recebido na Igreja Primitiva. Os ebionitas, por influência do forte monoteísmo judaico, não reconhecia a divindade de Cristo e o consideravam apenas como filho de José e Maria. Eles também eram adocionistas, pois entendiam que Cristo havia sido adotado por Deus na ocasião do seu batismo. De modo semelhante, os alogianos, além de rejeitar a divindade de Cristo, rejeitavam os escritos joaninos pois consideravam que seus escritos entivessem em contradição com as escrituras. Os alogianos, à semelhança dos adocionitas, entendiam que a parte divina de Jesus, o Cristo, teria tomado conta de Jesus na ocasião do batismo, e por isso, teria se tornado poderoso e habilitado a realizar milagres. Já os sabelianos ousaram em sua conceituação de Cristo: Eles o entendiam como a manifestação do Deus Pai na pessoa de Cristo, ou seja, para eles o Filho era a encarnação do Pai. Os arianos entendiam que Jesus era divino, mas não tanto. Para eles, Jesus era uma divindade à parte do Pai, mas não divino como Ele. Eles o entendiam com uma entidade intermediária entre o Pai e os homens, sendo ele a primeira criatura de Deus.
De modo interessante, sob novas formas, motivações e alegações essas perversões se mantém ainda hoje: Algumas seitas pseudo-cristãs ainda defendem a não divindade de Jesus Cristo. Isso é o que acontece com os Testemunhas de Jeová, que adotam o conceito de divindade de Cristo dos arianos, o adocionismo dos ebionitas e o subordinacionismo de Orígenes. É bem verdade que tais perversões acontecem sob novas formas e são defendidas como verdades defendidas pelas escrituras.
Contudo, àqueles que procuram defender a não divindade de Jesus Cristo devem procurar outra fonte para suas pesquisas que não as Escrituras Sagradas. Muito embora sejam poucas as passagens que defendam explicitamente a divindade de Cristo, o conceito permeia toda a escritura (Sobre o assunto recomendo aos leitores dois artigos: (1) Jesus é Deus de acordo com as Escrituras; (2) Jesus: Homem Deus).
Por essa razão, nesse post vamos observar um verso do Antigo Testamento que apresenta o Messias prometido como Yahweh:
Jr.23.5-6: Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.
Nesse verso podemos perceber claramente que o Renovo Justo, o Rebento de Davi será chamado (do ponto de vista do autor) SENHOR (YHWH – Yahweh). Mesmo a versão corrompida das Testemunhas de Jeová reconhece esse fato:
Jr.23.5-6: “Eis que vêm dias”, é a pronunciação de Jeová, “e eu vou suscitar a Davi um renovo justo. E um rei há de reinar e agir com discrição, e executar o juízo e a justiça na terra. 6  Nos seus dias, Judá será salvo e o próprio Israel residirá em segurança. E este é o nome pelo qual será chamado: Jeová É Nossa Justiça.”
Portanto, nesse post iremos tratar de três características do Messias apresentadas nesse texto, sua revelação no Antigo e Novo Testamento, suas implicações para a Cristologia Cristã e como esse verso rejeita as perversões cristológicas das seitas pseudo-cristãs modernas. Os três aspectos são:
PRIMEIRO ASPECTO: A Messianidade de Jesus: “levantarei a Davi um Renovo justo
SEGUNDO ASPECTO: O Governo de Jesus: “e, rei que é, reinará,”
TERCEIRO ASPECTO: A Divindade de Jesus: “será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa

A. Primeiro aspecto: Jesus como Messias.

O primeiro aspecto que encontramos nesse verso é uma profecia a respeito do Messias, que aqui é prometido como o descendente de Davi, o Renovo Justo. As características do Messias são claramente encontradas no AT e no NT.

1. No Antigo Testamento

O Antigo Testamento apresenta cinco princípios fundamentais acerca do Messias: (1) Ele seria um homem escolhido/separado/ungido por Deus (2) para realizar um propósito Redentor e (3) para realizar o julgamento contra os seus adversários. (4) A Ele se dará o domínio das nações e (5) e em todas essas atividades Yahweh será identificado com autor. Todas essas características se aplicam a Cristo e encontram em nosso texto claro paralelo. Segundo o AT ainda podemos notar algumas informações sobre o Messias Prometido.
As profecias anteriores a Abraão e Isaque (Gn.18.17-19; 26.4-5) falam apenas da salvação que viria através de sua descendência. Mais tarde, a dignidade real da profecia torna-se a característica proeminente. Ele é descrito como um rei da linhagem de Jacó (Nm.24.19), de Judá (Gn. 49.10), e de Davi (2Sm.7.11-16). Seu reino será eterno (2Sm.7.13), sua influência sem limites (Sl.71.8) e todas as nações o servirão (Sl.71.11). No que se refere às profecias messiânicas observadas a ênfase está na sua posição de herói nacional: Ele trará a Israel e Judá a salvação (Jr.3.6), triunfando sobre os seus inimigos pela força das armas (cf. o rei-guerreiro do Sl.45). Mesmo em Isaías há passagens (cf.61:5-8), no qual outras nações são consideradas como a partilha do reino e não como servos do que como herdeiros, enquanto a função do Messias é levantar Jerusalém a sua glória e lançar as bases de uma teocracia israelita.
Embora muito mais possa ser dito sobre a profecia messiânica, incluindo a natureza espiritual de seu anúncio e cumprimento, ressaltamos esses aspectos aqui em função da ênfase do texto que estamos a analisar.

a. Levantarei:
Segundo o texto vemos que é Yahweh que chamará o Messias, Ele será aquele que escolhe e unge o Ungido de Yahweh. O termo empregado aqui (hb. quwm) é usado com freqüência no AT para descrever a atividade de Yahweh, seja para salvação (Is.44.26; 49.22; Jr.23.4; 30.9; Am.9.11) ou punição (Is.29.3; Jr.13.26; 15.6; 51.1; Am.6.14; Na.3.5). É interessante notar que diante das profecias messiânicas entendemos que Deus seria o responsável pela eleição, separação e unção do Seu Escolhido, o Messias. Essa idéia é perfeitamente encontrada em Is.42.1:
Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios.
Essa mesma idéia é apresentada a respeito de Cristo em seu batismo: Ele é o Filho Amado, em quem Deus se alegra, e sobre quem colocou o Seu Espírito. A idéia do Messias como escolhido de Yahweh também é encontrado em Sl.89.3:
Fiz aliança com o meu escolhido e jurei a Davi, meu servo Para sempre estabelecerei a tua posteridade e firmarei o teu trono de geração em geração

b. Davi:
O texto nos ensina que Yahweh iria escolher, levantar no sentido de designar para uma tarefa, da descendência de Davi, um Renovo Justo. Devemos dar atenção à essa referência, pois ela é uma marca da profecia messiânica do Antigo Testamento. Essa concepção nasceu na Promessa de Deus em suscitar de Davi um descendente que teria o Reino Eternamente:
Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino (2Sm.7.12-13).

Esse descendente de Davi seria Rei e seu Reino seria eterno, mas esse também edificaria o Templo de Yahweh em Jerusalém. Seguindo a história de Israel, sabemos que Salomão foi o descendente de Davi que edificou o Templo em Jerusalém, então, por que a profecia não foi cumprida nele?
No que se refere a profecias vétero-testamentárias temos que compreender o que se denomina sensus plenior da profecia. A expressão latina é usada para descrever aspecto mais abrangentes de uma profecia que contém aspectos cumpridos imediatamente. São diversas as profecias que denotam esse sentido, como a profecia da Queda de Satanás, que fala primeiramente do Rei de Tiro (Ez.28), ou do descendente da mulher (Gn.3.15), que foi esperado imediatamente (Gn.4.1, 25), ainda esperado algum tempo depois (Gn.5.29), mas cumpriu-se apenas em Cristo. Do mesmo modo, o descendente de Davi seria o Rei esperado, o Messias, separado por Yahweh para uma missão redentora estabelecida por Ele, muito embora o descendente imediato de Davi, Salomão, tenha sido aquele que edificou o Templo em Jerusalém.

c. Renovo Justo:
Como sabemos que esse Renovo trata-se do Messias? O termo usado em Jeremias 23.5 (hb. tsemach) é usado em outros lugares em conexão com a expectativa messiânica, como em Is.4.2:
Naquele dia, o Renovo do SENHOR será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno para os de Israel que forem salvos
A expressão “naquele dia” é parte integrante da escatologia bíblica. Os profetas olhavam para o dia do futuro quando o Deus de Israel, que repetidamente visitou Seu povo na História, os visitaria finalmente a fim de julgar os ímpios, redimir os justos, e expurgar todo mal da terra. Existem diversas expressões equivalentes ao termo “Dia do Senhor”, tais como: “Naquele Dia”, “O Dia”, “Aquele Dia”, “Últimos Dias”. Em diversas dessas profecias a idéia de um Messias é presente como em Is.4.2 e Jr.23.5.
No texto que estamos observando vemos o mesmo conceito apresentado na expressão: “Eis que vem dias”, como uma revelação divina de um futuro esperado. Ou seja, nesse futuro, o Renovo Justo, descendente de Davi exerceria seu Reino Eterno. Portanto, é evidente que a referência aqui é ao Messias. Em Zacarias encontramos uma declaração ainda mais explícita sobre a conexão entre o Renovo e o Messias:
Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens de presságio; eis que eu farei vir o meu servo, o Renovo (Zc.3.8); E dize-lhe: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR. (Zc.6.12).
O AT ainda apresenta a mesma idéia ao usar sinônimos do termo hebraico para Renovo, para descrever o Messias, como em Is.11.1: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo”. Embora a mesma idéia seja apresentada aqui, um descendente de Davi anunciado como um Renovo, o termo hebraico é apenas sinônimo (hb. netser) do usado por Jeremias (hb. tsemach).
Entretanto, e importante notar que em Is.11.1 encontramos outro distintivo desse descendente de Davi, que é chamado Rebento de Jessé. Sobre isso, Sl.132.11 é claro:
O SENHOR jurou a Davi com firme juramento e dele não se apartará: Um rebento da tua carne farei subir para o teu trono.
Todas essas designações são suficientes para demonstrar a terminologia vétero-testamentária sobre o Messias, e para evidenciar que é evidente que Jeremias apresenta o Messias como Renovo Justo, que viria como Rei Sábio e Justo Juiz.

d. Justo:
O termo justo (hb. tsadiyq) aqui descreve não apenas o caráter do Messias, mas também suas obras. O termo é normalmente empregado para descrever um grupo de pessoas de comportamento adequado (Sl.1.6),o caráter de uma pessoa (Gn.6.9) ou até mesmo de Yahweh (Sl.7.9; Sl.11.7), mas também às ações que estes realizam (Is.26.7). É por isso que o Renovo Justo julgará com Justiça.

2. No Novo Testamento

A expressão “Filho de Davi’” no NT já é identificada como sinônimo de Messias visto tão grande expectativa que se tinha sobre Sua chegada. Observe que essa era a opinião dos judeus sobre o Messias (Mt.12.23); dos fariseus (Mt.22.42); dos escribas (Mc.12.35); dos cegos à beira do caminho (Mt.9.27; 20.30); da mulher Cananéia (Mt.15.22). Provocativamente, Jesus chamou para si essa designação quando ao entrar em Jerusalém à semelhança da coroação de Salomão (1Rs.1.38) insinuou o cumprimento da profecia messiânica (Mt.21.5; Zc.9.9) enquanto permita que as multidões o chamassem “Filho de Davi” (Mt.21.9).
É por essa razão que a Genealogia de Jesus é tão importante no Novo Testamento: Se Jesus era quem afirmava ser, era necessário que fosse descendente de Davi. Note que essa ênfase foi encontrada na proclamação da igreja primitiva (At.2.25; 29-36).
Outro detalhe que merece nossa atenção é que Jesus é apresentado pelas escrituras como o Messias prometido. Alias o título aplicado a Jesus no NT já apresenta essa verdade: Cristo. O termo Cristo (Gr. Christós) não é, como alguns pensam um sobrenome de Jesus. É na verdade a tradução grega do termo hebraico (hb. mashiah) para Messias. O Apóstolo João deixa isso bem claro, quando usa os dois termos em uma sentença: “Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo.1.41). o Termo grego para Cristo é usado cerca de 531 vezes no NT em referência a Jesus Cristo.
É interessante notar a estreita relação entre as duas idéias: Messias e o Filho de Davi. Os evangelhos apresentam claramente a idéia de que o povo esperava o Messias (Jo.1.20, 41; 4.29; Lc.3.15), que deveria ser descendente de Davi (Mt.21.9; 22.42), que nasceria em Belém (Jo.7.40-42; Mt.2.5), como já vimos demonstrado no Antigo Testamento. Tal expectativa era de tal forma consolidada que até mesmo os magos do oriente vieram a procura de um Rei que havia nascido (Mt.2.1-2), e os escribas que estavam a serviço de Herodes haviam entendido que tal pergunta se referia a Cristo (Mt.2.4). Já Herodes entendeu com um sentido político, e por medo de perder seu cargo (Mt.2.3) e resolveu dar cabo dos recém-nascidos na região (Mt.2.16-18).
Portanto, parece claro que o Novo Testamento atribui a Jesus Cristo a Messianidade esperada pelos judeus conforme anunciada no Antigo Testamento. É interessante que há estreita relação entre o Messias e o Rei esperado, e tal expectativa manifestou-se diversas vezes no ministério público de Jesus. Isso se deve ao fato de que o Messias prometido, também foi prometido como Rei libertador. Esse conceito, é também apresentado com clareza no texto que temos atentado, por isso chamo sua atenção para a continuidade do mesmo.

B. Segundo aspecto: Jesus como Rei

Já temos demonstrado que a terminologia e conceito desse texto apresentam a figura do Messias, como descendente de Davi, o Renovo Justo, o Rebento de Jessé. Também já observamos a estreita relação entre a identidade de descendente de Davi e o Reino prometido a Ele. Não é à toa que o texto que estamos a ler continua: “rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra”.

1.  No Antigo Testamento

O termo usado para rei (hb. malek) aqui é comum e provavelmente nada extraordinário é visto no sentido desse termo. O sentido mais usual do termo é a idéia de um governante de uma nação (Gn.14.1; Dt.11.3), ou até mesmo de Israel (Dt.17.14; 1Re.1.34; 9.11). Eventualmente, Yahweh é chamado de Rei de Israel (Nm.23.21; Dt.33.5; 1Sm.12.12). Contudo, esse título também é aplicado ao Messias como futuro Rei do Povo de Deus, e segundo o AT, podemos notar algumas características desse prometido Rei:
a. Rei constituído por Yahweh:
Uma das verdades sobre esse Messias-Rei é que Ele seria constituído como tal por Yahweh, O texto que temos observado já demonstrou esse fato, mas é importante lembrar o leitor que essa é uma característica desse Rei expressa no AT,observe:
Sl.2.6: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”. A expressão usada pelo salmista aqui demonstra claramente essa dupla função do Ungido Esperado como Messias e Rei: O termo “constituí” foi traduzido em outras versões como “ungi”, “consagrei”, duas designações comuns para se falar do Messias. Entretanto, aqui ele é Ungido como Rei.
Sl.18.50: “É ele quem dá grandes vitórias ao seu rei e usa de benignidade para com o seu ungido, com Davi e sua posteridade, para sempre”. Nesse salmo encontramos a ação de Yahweh em conceder a Seu Rei vitórias, além de o chamar de Seu Ungido. Ambos os termos são usado em relação a Davi e seu reino, contudo a promessa de Deus se estende para sua posteridade, eternamente. Portanto, aqui vemos a Yahweh como aquele que separa da linhagem de Davi Seu rei, Seu Ungido e o habilita a vencer. Segue-se que tal Rei e Ungido é estabelecido e mantido por Yahweh.


b. Seu Reino é Eterno:
Uma das características desse Reino do descendente de Davi é que seria Eterno. Desde que a promessa divina foi dada a Davi esse aspecto ficou claro: “Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino” (2Sm.7.12-13). Assim, Yahweh ao apresentar a idéia de um Rei descendente de Davi, prometeu um reino eterno, conceito que foi expandido pelos profetas (cf. 2Pe.1.11):
Dn.2.44: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre”. Ao passo que o reino das nações é temporal e passageiro, o reino prometido por Yahweh não pode ser destruído nem deixar de existir. Essa promessa sobre a eternidade do reino do ungido de Yahweh é ampliada com o conceito da impossibilidade de esse reino ser destruído.
Dn.7.14: “Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído”. É interessante que a profecia passa agora a garantir que não apenas o Reino será Eterno mas o Domínio do Rei o será. Ora, se o domínio não tem fim, segue-se que aquele que o possui não pode ser temporal.. Portanto, há estreita ligação entre a eternidade do reino e a eternidade do Rei, como veremos adiante.


c. Seu Reino é Justo:
Essa é uma verdade claramente exposta em nosso texto: O Messias-Rei exercerá a justiça e o juízo durante seu Reinado eterno. Essa verdade é atestada em outros lugares na escritura, observe:
Is.32.1:Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes”. A idéia de um Rei Justo que viria é parte da expectativa judaica sobre o Messias, sendo vista em alguns Salmos:
Zc.9.9: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”. O Rei prometido também é visto como Justo e Salvador: Repousa sobre esse Rei a promessa da Salvação de Judá e a segurança de Israel. Esse Rei é humilde e é apresentado pela figura do homem montado na jumenta, como Cristo bem apresentou em sua entrada triunfal em Jerusalém (Mt.21.5).
Sl.99.4:És rei poderoso que ama a justiça; tu firmas a eqüidade, executas o juízo e a justiça em Jacó”. A similaridade do fim desse verso com o texto que temos analisado reforça a idéia de um Rei cujo Reino é realizado em Justiça. De modo interessante, é também prometido um Reino cujo súditos andam em justiça, observe:
Ez.37.24: “O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão”. Em função de um governo justo, exercido por um Rei justo, os súditos desse reino futuro, serão obedientes aos estatutos e mandamentos de Yahweh.


d. É Rei Digno de Adoração:
Um dos detalhes que merece atenção é a promessa de Yahweh de que o Seu Ungido será adorado, por causa do amor de Yahweh: “Assim diz o SENHOR, o Redentor e Santo de Israel, ao que é desprezado, ao aborrecido das nações, ao servo dos tiranos: Os reis o verão, e os príncipes se levantarão; e eles te adorarão por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu“ (Is.49.7). Alguns pensam que o termo “adorar” aqui deveria ser entendido como se prostrar. É importante lembrar que o termo aqui (hb. shachah) é usado para descrever a atitude de prostrar-se reverentemente diante de alguém de maior autoridade (1Sm.24.9), entretanto, esse não é seu uso primordial, uma vez que esse uso apenas atesta-se 18x, enquanto o sentido de adorar, 99x no AT. Outro detalhe que merece nossa atenção é o termo “levantar” (hb. quwn) exige que o termo seja entendido como adoração e não com o sentido de prostrar-se.


e. É Rei Eterno, como Yahweh:
Todas essas características apresentam um fato interessante: O Messias Prometido tem os mesmos atributos que Yahweh. Note que é dito no AT sobre Yahweh como Deus eterno, do mesmo modo que o Mesias-Rei o É.  O Reino de Yahweh é Eterno, do mesmo modo que o Reino do Messias-Rei prometido. E por isso que o Messias é chamado nesse verso de Yahweh.
Sl.61.6: “Dias sobre dias acrescentas ao rei; duram os seus anos gerações após gerações”. O Rei prometido é um Rei cujos dias não se acabam, portanto, eterno. Essa característica é exclusiva de Yahweh no AT (Gn.21.33), observe: “O SENHOR é rei eterno: da sua terra somem-se as nações” (Sl.10.16); “Mas o SENHOR é verdadeiramente Deus; ele é o Deus vivo e o Rei eterno; do seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação” (Jr.10.10; cf. Ex.15.25; Sl.29.10; Zc.14.9).
Mq.5.2:E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas obras são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” . Nesse verso vemos claramente o fato de que o Messias Prometido, que irá Reinar sobre Israel, não tem início de dias, e, portanto, não criado. Esse conceito é claramente ensinado no AT em referência a Yahweh, como o primeiro e o último (Is.44.6; 48.12) terminologia que também é aplicada a Jesus Cristo, o Messias-Rei prometido no AT, em Apocalipse (Ap.1.17, 2.8; 22.13).
Todas essas designações do Messias-Rei prometido testemunham a identidade de Cristo como o Messias-Rei esperado, e na identificação do Messias com Yahweh vemos claramente sua divindade anunciada muito antes de sua encarnação. Não é à toa que lemos nesse texto que Ele é chamado Yahweh, nossa Justiça.

2. No Novo Testamento

Como já demonstramos, havia nos tempos de Jesus uma clara expectativa da vinda do Messias-Rei como libertador político. A expectativa judaica era que o Messias-Rei viria de Jerusalém (Mt.5.35), como o magos do oriente já tinham demonstrado (Mt.2.2), fato não negado pelo próprio Cristo (Mt.27.11; Jo.18.37) e ironizado por aqueles que o crucificaram (Mt.27.27, 37, 42).
De modo interessante, os judeus tinham certa resistência com esse fato, pois não o viam como o Filho de Davi, Messias-Rei libertador de Israel. Note que é exatamente essa uma das acusações contra Jesus Cristo: “E ali passaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei” (Lc.23.2). Isso é importante ser ressaltado, pois nesse sentido Jesus foi uma decepção para aqueles que o esperavam, pois não viam nele um Rei Valente, um líder político que vira para libertar a Israel.
Essa frustração não veio sem evidências, pois o próprio Jesus em algumas ocasiões rejeitou a idéia de ser feito rei entre ele: “Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte” (Jo.6.15). Além disso, Ele mesmo testificava que seu Reino não era desse mundo: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo.18.36).
A verdade é que o Reino de Cristo, segundo ensinado por Ele mesmo, na ocasião da sua encarnação não era um Reino Físico: “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc.17.20-21). Esse reino apresentado por Cristo não era o Reino que os judeus pareciam esperar, apesar de ser o Reino Prometido.
O Reino apresentado por Cristo, era um Reino dos céus (Mt.3.2; 4.17), uma forma mais aceitável de se apresentar o Reino de Deus a um Judeu. É evidente que o Reino dos céus apresentado por Cristo no Evangelho de Mateus é o Reino de Yahweh, mas que por zelo ao uso do nome do Senhor, foi apresentado como Reino dos céus. Uma rápida observação nos evangelhos sinóticos irá revelar esse fato. Reforça essa idéia o eventual uso do termo céu (Gr. ouranós) como alusão ao próprio Deus em Mateus (Mt.21.25; cf. Mt.5.16; 5.34; 5.45; 6.9; 16.1; 23.22).
Esse Reino dos céus estava próximo e essa era a mensagem pregada por Cristo (Mt.3.2) e ensinada aos seus seguidores (Mt.10.7), a quem revelaria os mistérios desse reino (Mt.13.11). Esse reino seria visto por seus seguidores antes que viessem a morrer (Mt.16.28), o que reforça a idéia de um Reino espiritual e não físico. A participação nesse Reino exigia arrependimento (Mc.1.15), ser como uma criança (Mc.10.14), ser desapegado ao dinheiro (Mt.19.24), ser humilde de espírito (Mt.5.3), perseguido por causa da justiça (Mt.5.10), nascer de novo (Jo.3.3-5). Em outras palavras, era necessário exercer a fé centrada no Messias-Rei como Salvador e Senhor (At.2.36; Rm.10.9). Não é à toa que os judeus não aceitavam sua mensagem, e que o acusavam de usurpar das escrituras um direito que não era dele (Lc.23.2).
Contudo, deve-se lembrar que desde cedo no Ministério Público de Jesus, os seus seguidores o reconheceram como Messias e Rei. Natanael assim que o conheceu testemunhou: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Eles também esperavam pela concretização desse reino durante todo o tempo de ministério de Jesus entre eles. A curiosidade deles era tanta que gostariam de saber quem seria o que se assentaria ao seu lado no Reino (Mt.20.21), ou quem seria o maior nele (Mt.18.1). De modo interessante, Jesus nunca corrigiu seus seguidores sobre o conceito que tinham sobre o Reino, o que sugere que este não seria apenas espiritual.
Note que Jesus, depois de ressuscitado é interrogado pelos discípulos se esse era a ocasião em que ele restauraria a Israel o reino (At.1.6). Se o Reino fosse estritamente espiritual, Jesus deveria ter corrigido a pergunta dos apóstolos, mas não o fez. Em sua resposta, afirmou: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At.1.7). Em outras palavras, Jesus disse: “não te interessa quando vou fazer isso, faça a sua parte (At.1.8) que no tempo certo o Senhor fará a sua”. Entretanto, é importante ressaltar que o reino fazia parte do conceito de expansão da Igreja (At.8.12; 14.22; 19.8; 20.25; 28.23, 31).
Na exposição de Paulo, o reino também é apresentado como não primeiramente físico: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm.14.17; cf. 1Co.4.20); “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1Co.15.50). Ao que tudo indica, o Reino de Deus para Paulo era primeiramente espiritual e exige conformidade ética e moral com o Rei (1Co.6.9; Gl.5.21; Ef.5.5). Paulo chega a usar a expressão reino celestial para se referir à natureza desse Reino de Deus (2Tm.4.18; cf. 1Ts.2.12; Cl.1.13).
Assim, entendemos que o Reino do qual Jesus é Rei é primeiramente espiritual, mas também o será literal e fisicamente no futuro, quando o Senhor volta para realizar as profecias referentes a Israel, como anunciadas no Antigo Testamento, como o Apocalipse claramente nos informa (Ap.17.14; 19.16; 20.6). Portanto, entendemos que Jesus é o Messias-Rei prometido.

D. Terceiro Aspecto: Jesus como Deus

O que vimos até aqui fortalecem a idéia de uma real identidade entre Yahweh e o Messias-Rei prometido. Isso não significa que o Messias e Yahweh são a mesma pessoa, como pensam os sabelianos. Está claro até aqui que Yahweh e o Messias-Rei prometido não pode ser a mesma pessoa, uma vez que percebemos que esse Rei é Estabelecido por Yahweh. Por outro lado, também fica evidente que o Messias-Rei é Deus, tão divino quanto Yahweh, e essa verdade é claramente ensinada nesse verso. Os arianos, modernos e antigos, devem considerar esse fato quando descrevem a Jesus Cristo como Messias-Rei prometido no AT, pois tal é divino como Yahweh: “será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa”.
Já temos demonstrado em outros artigos o conceito de que o Antigo Testamento já atestava a idéia de um Messias-Rei que fosse divino. Várias passagens do AT são usadas no NT com reforço dessa ênfase. Uma das descrições sobre a Eternidade de Yahweh em Isaías é claramente usada em Apocalipse em referência a Jesus Cristo, observe:
Is.44.6: Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus (cf. 48.12)
Ap.2.8: Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver (cf. 1.17; 22.13)
Em Apocalipse a referência a Jesus Cristo com uma característica de Yahweh é clara: É sempre Jesus que fala ao mensageiro das igrejas, e aqui além do título de primeiro e último, Jesus se apresenta como aquele que esteve morto e tornou a viver. Portanto, não temos por que pensar que a referência aqui não é a Jesus Cristo.
De modo interessante, tal expressão evidencia o fato de que tanto Yahweh como Jesus não tem nem início nem fim, pois antes deles não houve jamais ninguém, nem depois deles haverá. Se Yahweh é o primeiro do mesmo modo que Jesus, afirma-se claramente a idéia de que Eles são um, não apenas em propósito, mas em essência. Essa verdade clara nas escrituras seria suficiente para demonstrar a divindade de Cristo como anunciada pelas escrituras, fato que deveria fazer os arianos, modernos e antigos, repensar suas ideologias. Não é à toa que foram chamados de hereges.
Entretanto, poderíamos usar outras declarações para evidenciar que Jesus é Divino, afinal o Antigo Testamento também atesta com clareza que aquele a Salvação é obra de Yahweh, e que apenas Yahweh é Salvador, fato que no Novo Testamento é aplicado claramente a Jesus Cristo:
Jl.2.32: E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo.
At.2.21: E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. (Em referência a Jesus)
1Co.1.2: à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso.
Rm.10.9, 13: Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (…)Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
O texto de Joel atesta que aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. O uso de caixa alta para descrever o termo SENHOR na ARA é uma designação de que o Tetragrama (YHWH – Yahweh) está sendo usado. Portanto, está claro que o texto ensina que aqueles que invocarem o nome de Yahweh serão salvos. Os judeus contemporâneos de Jesus certamente teriam acesso a essa informação e sabiam do que se tratava o texto, e Pedro, judeu contemporâneo de Jesus, usa esse texto em referência a Jesus (At.2.21). Em sua pregação ele encerra sua mensagem por anunciar que Jesus Cristo, varão conhecido diante dos seus ouvintes, é Senhor e Cristo, ou seja, Yahweh e Messias.
Paulo também faz uso desse mesmo texto de Joel e o aplica a Jesus Cristo (1Co.1.2), chamando a Jesus de Yahweh. É bem verdade que a alusão feita aqui pode ser muito mais amena que a feita por Pedro, mas não é a única ocasião em que ele a usa. Observe que ele faz o mesmo quando apresenta o modo da salvação em Rm.10.9 e cita Jl.2.32 como demonstração de cumprimento profético em Rm.10.13. A idéia de “confessar a Jesus como Senhor” em referência a Jl.2.32 certamente atesta que a verdadeira fé cristã reconhece a divindade de Jesus Cristo. Esse fato é evidente na fundamentação paulina encontrada no profeta Joel. Na mente de Paulo Jesus e Yahweh são um, como Jesus já tinha ensinado (Jo.10.31).
Como vários exemplos já foram oferecidos nos posts: (1) Jesus é Deus de acordo com as Escrituras; (2) Jesus: Homem Deus, pretendo usar apenas mais um:
Is.40.3: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus.
Mt.3.3: Porque este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas
É evidente que Mateus entendeu o recado do profeta Isaías como uma predição ao trabalho de João Batista em relação ao ministério de Jesus. Fato interessante, é que Mateus usou um texto que Isaías atribuiu a Yahweh para se referir a Cristo. Essa relação tem sido atacada pelos arianos modernos (Testemunhas de Jeová), como se o texto estivesse a dizer que o caminho estava sendo preparado para Yahweh por intermédio de Jesus. Contudo, nada no texto sugere esse tipo de interpretação. E para demonstrar tão grande equívoco dessa afirmação, temos que demonstrar dois fatos: (1) João Batista tinha convicção que estava preparando o caminho para Cristo (Mt.3.11); (2) As profecias referentes a João Batista incluíam a específica declaração: Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos (Ml.3.1). Ou seja, João Batista iria preparar o caminho à frente de Yahweh, como fez em seu ministério adiante de Cristo.
É evidente que o Antigo Testamento prevê um Messias-Rei que fosse divino. É digno de nota que o texto que estamos a observar traz uma das mais evidentes provas desse fato:
Jr.23.5-6: Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.
Para observarmos esse texto com justiça, vamos considerar duas declarações fundamentais ainda não analisadas: (1) o uso da expressão “nome” (hb. shem); (2) O uso do tetragrama (YHWH – Yahweh).

a. Será este o seu nome:
Uma das primeiras objeções que se faz a compreensão da profecia de um Messias-Rei Divino é que o texto não diz que o Messias é Yahweh, mas que será chamado Yahweh. Segue-se a essa objeção o fato de que no mesmo livro, Jeremias usa uma expressão similar para se referir ao povo de Jerusalém: Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém habitará seguramente; ela será chamada SENHOR, Justiça Nossa (Jr.33.16). Note que o conjunto das objeções parece aceitável, e por essa razão merece nossa atenção.
Em primeiro lugar precisamos estabelecer uma distinção importante entre Jr.23.6 e 33.16:
Jr.23.6: Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.
Jr.33.16: Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém habitará seguramente; ela será chamada SENHOR, Justiça Nossa
O primeiro detalhe que nos chama a atenção é a distinção de foco: O primeiro texto claramente fala sobre o Messias, ou o Renovo; Já o segundo fala claramente sobre Jerusalém. Se 23.5 fala da divindade do Messias, 33.16 deveria falar da divindade de Jerusalém.
Entretanto, temos que notar que há uma pequena diferença de grandes proporções nos dois textos, pois 33.16 diz que a nação será chamada Yahweh nossa Justiça, enquanto 23.6 afirma que esse será o nome do Messias. O termo hebraico usado para descrever “nome“ (hb. shem) tem um significado muito mais aprofundado do que a expressão portuguesa aqui: O termo refere-se ao caráter e essência de um ser. Observe esse fato expresso no AT:
1Sm.25.25: Não se importe o meu senhor com este homem de Belial, a saber, com Nabal; porque o que significa o seu nome ele é. Nabal é o seu nome, e a loucura está com ele; eu, porém, tua serva, não vi os moços de meu senhor, que enviaste
Essa relação entre nome e caráter no Antigo Testamento é fato claramente. Considere o caso de Jacó que teve seu nome alterado para Israel por Yahweh (Gn.35.10). O significado de Jacó é “enganador” ao passo que Israel “Deus prevalece” como expressão da fidelidade e manutenção graciosa do Seu Soberano Plano apresentado a Abraão.
Fato similar acontece com Noemi, que por grande sofrimento pela perda do marido e dos seus filhos (Rt.1.12), descreve sua situação com o termo “amarga” (hb. Mara; Rt.1.13; cf. Ex.15.23), nome que adota para descrever sua situação: “Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” (Rt.1.20). Muitos outros exemplos poderiam ser usados para ilustrar esse fato, mas já temos demonstrado um fato recorrente no AT, e por isso podemos concluir seguramente que a relação entre o nome e o caráter e a essência de um ser na mentalidade hebréia antiga é fato claramente observável no AT.
Entretanto, é fundamental demonstrar que esse termo (hb. shem) é usado no AT para descrever a exclusividade de Yahweh e eventualmente é usado em substituição do tetragrama quando em referência a Yahweh:
Ex.20.24: Um altar de terra me farás e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos, as tuas ofertas pacíficas, as tuas ovelhas e os teus bois; em todo lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e te abençoarei
Sl.61.8: Assim, salmodiarei o teu nome para sempre, para cumprir, dia após dia, os meus votos
Diversos casos podem ser apresentados para descrever uma ação feita a Yahweh apresentada como uma ação feita em seu nome (Ex.34.14). Essa identificação entre nome e pessoa (caráter e essência) é fundamental para entendermos o que significa o Messias-Rei ter o nome de Yahweh. Note que as profecias já atribuíam ao Messias Divino:
Is.7.14: Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.
Is.9.6: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz
Emanuel, Deus Conosco, seria a descrição da pessoa e caráter desse Messias prometido, do mesmo modo que Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz. Esse Messias seria Deus entre nós, Deus forte e Pai da Eternidade, atribuições evidentes de sua Divindade absoluta.
Entretanto, esse Messias-Rei Divino prometido também levaria sobre si a designação do nome de Yahweh: “Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa” Entretanto, esse nome é exclusivo do Deus Eterno e Pai e ninguém mais têm tal nome e glória, pois Yahweh não divide com os ninguém.
Ex.15.3: O SENHOR é homem de guerra; SENHOR é o seu nome
Ex.3.15: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração
Sl.83.18: E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra
Is.42.8: Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura
Jr.16.21: Portanto, eis que lhes farei conhecer, desta vez lhes farei conhecer a minha força e o meu poder; e saberão que o meu nome é SENHOR
O que é evidente no AT é que ninguém mais pode ser chamado pelo nome de Yahweh, pois esse é o nome de Deus. É interessante que tal nome é uma descrição do próprio Deus, como Aquele que é, o Auto-existente, o Doador da vida e da existência, o Criador, Imutável e Eterno. É interessante que todas essas características de Yahweh são atribuídas a Jesus Cristo no NT: Aquele que é (Jo.8.58); Auto-existente (Jo.5.26); Autor da vida (At.3.15); Criador (Jo.1.3; Cl.1.16), Imutável (Hb.13.8) e Eterno (Jo.1.1). Ao que tudo indica, os autores neotestamentários entenderam que as profecias de um Messias-Rei Divino se cumpriram plenamente em Jesus Cristo.
Assim, diante dessas informações temos certeza de que Jr.23.6 atesta a identidade plenamente divina do Messias-Rei prometido, que é vista na figura de Jesus Cristo, nosso Deus e Salvador (Tt.2.13; 2Pe.1.1).

b. Yahweh Nossa Justiça:
O texto de Jr.23.5 atesta que o nome do Messias-Rei prometido é Yahweh nossa Justiça, e como vimos isso atesta o fato de que Jesus é tão divino quanto Yahweh, e não uma divindade à parte do Pai como pensam os arianos. Entretanto, alguém poderia objetar por dizer que outros personagens no Antigo Testamento já tiveram em seus nomes o título de Jeová, o que deveria aumentar nossa lista de pessoas divinas.
Por exemplo o nome Josué (hb. Yehowshuwa) significa Yahweh é Salvador, mas os cristãos não o entendem como uma pessoa divina. Fato similar acontece com Zacarias (hb. Zekaryah), cujo nome significa Yahweh não esquece, ou Isaías (hb. Yesha`yah) Yahweh Salva, ou Jeozadaque (hb. Yehowtsadaq), Yahweh é Justo.
Entretanto, devem-se notar dois detalhes importantes no que se refere a pessoas cujos nomes fazem alusão ao nome do Senhor, Yahweh: (1) a nenhum desses personagens se disse que o nome (hb. shem) do Senhor seria dado a qualquer um deles e (2) em nenhum dos nomes desses personagens se usou o Tetragrama (YHWH – Yahweh). Embora seus nomes fizessem alusão ao nome sagrado, ele não estava lá.
Essa distinção é interessante e fundamental, pois apenas o Messias-Rei prometido é que recebeu o nome do Senhor e sua descrição foi feita com o tetragrama, nome exclusivo de Yahweh. Portanto, é seguro afirmar que tal declaração de Jeremias consolida claramente a identidade divina do Messias-Rei prometido. Segue-se que Jesus Cristo, o Messias e Rei prometido  no AT, é Deus como Yahweh, o Eterno Deus, Senhor dos senhores.

Conclusão

Para encerrar esse post, resolvi transcrever a opinião de um dos grandes pensadores cristãos do passado e suas impressões sobre esse texto, Charles Suprgeon:
Jesus Cristo é o Senhor nossa Justiça. Há porém, três palavras “Jeová” – pois assim está no original – “NOSSA JUSTIÇA. Ele é o Senhor. Leia esse versículo, e você vai perceber claramente que o Messias dos judeus, Jesus de Nazaré, o Salvador dos gentios, certamente é o Senhor. Ele tem o título incomunicáveis de Deus, o Altíssimo. “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa”. Oh, vós soncinianos e  arianos, que monstruosamente negam o Senhor que os comprou e vocês o colocaram à ignomínia, negando sua divindade. Leia esse verso e deixe a sua língua blasfema ficar em silêncio, e deixe o seu coração obstinado derreter em penitência,  porque tens pecado  maldosamente contra Ele. Ele é Jeová[1].

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Duas Gerações – Duas Histórias

Em nosso último estudo observamos a história de três irmãos, e como Yahweh tratou da história e da manutenção da Sua Promessa feita em Gn.3.15. Nesse estudo observaremos as distinções entre as gerações de Caim e de Sete e o modo como a posição de ambos diante de Deus influenciou o modo como seus descendentes se posicionaram diante de Yahweh.

A.     A Genealogia de Caim:

A história dos descendentes de Caim inicia com uma triste declaração: “Retirou-se Caim da presença do Sehor, e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden” (Gn.4.16). Já temos dito que Node não é uma região propriamente dita, ou não uma que tivesse nome, mas que Caim teria saído da presença de Deus ao oriente do Éden como terra de peregrinação, como o termo hebraico parece sugerir. Caim tornou-se errante pelo mundo, e a expressão Node fortalece essa idéia da maldição de Deus sobre sua vida.
O retrato final da sentença de Caim é similar ao que vemos em Adão e Eva, que foram colocados fora do Éden, mas de Caim é dito que ele foi expulso da Presença de Yahweh. A impressão que temos com essa declaração é que Deus encaminhou Caim a vaguear pela terra, e ele foi. Agora sem alternativas, Caim parece ter cumprido a primeira ordem de Deus. “O retirada de Caim da proximidade do afeto dos pais, dos relacionamentos familiares, e da manifestação divina, deve ter sido acompanhada de profundo e ulterior sentimento de arrependimento e remorso. Mas um profundo e recorrente transgressor e ele deve sofrer as conseqüências[1]”.

1.         Desgraça Esperada:

Era de se esperar que Caim, fora da presença de Deus, levasse seu potencial ao extremo e que seus descendentes fizessem o mesmo. Entretanto, alguns detalhes do texto nos chamam a atenção no modo como Moisés conta sua história e precisamos lê-la com atenção.
a. Caim Exilado: Início da Cidade:
Sobre a questão do casamento de Caim, recomendamos o leitor ler o capítulo anterior, quando falamos sobre a possibilidade de um casamento entre irmãs ou sobrinhas (cf. A esposa de Caim). Sobre o uso dos termos “conhecer” como eufemismo, no capítulo anterior (Caim e os frutos da Queda) atestamos que “a ênfase do texto descreve a intimidade do casal de modo eufemístico para demonstrar a procriação da humanidade conforme esperada por Deus na Criação”.
…e deu à luz a Enoque: Um detalhe interessante na genealogia de Caim é o nome do seu primeiro filho. Ao que tudo indica o nome Enoque em hebraico significa “dedicado”. Sobre o significado do nome do primogênito de Caim, Clarke afirma que Enoque “significa instruído, dedicado, ou iniciado, e especialmente em coisas sagradas, que pode ser considerado uma prova de arrependimento de Caim, pois parece que ele dedicou este filho de Deus[2]”.
Por outro lado, Merkh entende a atitude de Caim como um desprezo para com Deus, observe: “Nada no texto indica que ele se arrependeu ou confessou seu pecado. Em vez de contrição, encontramos auto-comiseração.  Em vez de aceitar a disciplina do Senhor, ele reivindica seus direitos e sente-se injustiçado.  Nunca apresenta frutos de arrependimento, mas resigna-se a uma vida de vagabundo, longe do Senhor e da sua graça[3]”.
Considerando o texto como um todo, é bem provável que Clarke esteja equivocado, e que, embora o nome do primogênito de Caim tenha um excelente significado, Caim demonstra sua rebeldia para com Deus quando, por sua própria iniciativa, inicia uma cidade contrariando a disciplina divina de que ele seria errante pela terra.
…edificou uma cidade: Considerando a construção da cidade, Barnes sugere que Caim estaria se protegendo de pessoas que poderiam intencionar vingar-se por Abel, observe: “Aqui encontramos o motivo de medo e defesa pessoal ainda dominante Caim. Sua mão havia sido embebida no sangue de um irmão, e ele espera que a mão de alguém um dia será contra ele[4]”. Essa atitude de Caim seria representa mais uma atitude de fuga da presença do Senhor do que dedicação a Ele, como Clarke sugere.
Outro detalhe que importa ser lembrado é que o desenvolvimento numérico dos descendentes de Caim não seria obstáculo para a criação de uma cidade. Como vimos na previsão de Ross no último estudo, o crescimento demográfico da população primeva, considerando sua longevidade, não seria problema. Keil & Delitzsch sobre isso afirmam: “A construção de uma cidade por Caim deixará de nos surpreender, se considerarmos que, no início da sua edificação, séculos já passaram desde a criação do homem, e os descendentes de Caim poderiam, por esse tempo ter aumentado consideravelmente em número[5]”.
Outro detalhe é que o termo hebraico para cidade (hb. iyr) não implica necessariamente em uma grande cidade, observe, por exemplo, que em Gn.10.12 Moisés acresce o adjetivo “grande” (hb. gadowl) para descrever uma grande cidade. O termo pode descrever tanto uma pequena cidade rural ( 1Sm.27.5) como uma vila (Js.13.23), ou até mesmo parte de uma cidade (1Sm.12.27).
…lhe chamou Enoque: Aqui novamente vemos a atitude incomum de Caim que ao invés de nomear a cidade com seu nome (Sl.49.11), como poderíamos esperar, ele o fez em nome do filho. Talvez, por sua afeição o tenha feito.
b. Lameque: Início da Poligamia:
Moisés quando fala sobre a criação do homem e da mulher, nos instrui por dizer que a o fato de ter sido a mulher criada a partir da costela do homem, existe no casamento a identificação da unidade entre os cônjuges, observe: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (Gn.2.24).
Observe que além de atestar a unidade do casal, Moisés optou pelo singular para se referir à mulher de Adão: “à sua mulher”. Essa declaração nos auxilia a compreender que o padrão que Deus tem para a união matrimonial é fundamentada em um casamento monogâmico e heterossexual. Isso é claramente observado no fato de que assim foi a preferência divina ao estabelecer a criação do homem e sua mulher. Note também que Jesus Cristo quando perguntado sobre o divórcio voltou os olhos para o mesmo verso para defender a santidade do casamento (Mt.19.4-5). Todas essas declarações nos levam a compreender que o padrão de Deus para o casamento deve ser realizado nos termos de Gn.2.23-25.
Lameque tomou para si duas esposas: Mais um passo na distância do padrão de Deus é alçado aqui. Enquanto o conselho divino determinava o padrão para o relacionamento matrimonial, Lameque, descendente de Davi demonstra seu completo desprezo pela palavra de Deus. Sobre isso Calvino nos instrui:
“Temos aqui a origem da poligamia em uma raça degenerada e perversa, e primeiro autor do mesmo é um homem cruel, destituído de toda a humanidade. Se ele tivesse sido impelido por um desejo imoderado de aumentar sua própria família, como os homens orgulhosos e ambiciosos costumam ter, ou pelo simples desejo, é de pouca importância se determinar, porque, de qualquer maneira ele violou a lei sagrada do casamento que tinha sido entregue por Deus. Porque Deus tinha determinado, que “os dois deveriam ser uma só carne”, e que é a ordem eterna da natureza. Lameque, com desprezo brutal de Deus, corrompe as leis da natureza[6]
Em acréscimo ao comentário de Calvino, Keil & Delitzsch falam que Lameque “foi o primeiro a preparar o caminho para a poligamia, pelo que os aspectos éticos do casamento, como ordenado por Deus, foi transformada pela concupiscência dos olhos e a concupiscência da carne[7]”. Não podemos ignorar o padrão de Deus em estabelecer um molde para o relacionamento matrimonial, do mesmo modo que não podemos minimizar a atitude de Lameque.
Contudo, é importante lembrar que, embora a poligamia não fizesse parte do padrão de Deus, ainda assim Deus o havia permitido em sua legislação e em muitos casos do Antigo Testamento. Personagens que marcaram a história de Israel conviveram com esse tipo de comportamento sem serem exortados por Deus por isso. A própria Lei incluía modos de se regulamentar esse tipo de comportamento, como restrições e permissões. Observe, por exemplo, o caso da morte de um homem que não deixou descendentes, a Lei instruía a seu irmão a assumir sua cunhada para dar descendência a seu irmão (Dt.25.5-10). Esse é um caso de Bigamia permitida pela Lei de Moisés dada por Deus.
No caso dos homens de Deus que conviveram com algum tipo de relacionamento matrimonial que não estava em conformidade com o padrão não foram exortados por Deus por isso. Considere em Gênesis o caso de Abraão, Sara e Hagar, que embora tenham violado o padrão divino do matrimônio não foram advertidos por isso. O mesmo pode ser dito de Jacó, Lia e Raquel.
Essa permissividade de Deus, contudo, não implica em normatização. Alias, é digno de nota que a casa dos polígamos no AT sempre sofreram de alguma forma por sua relação distorcida. Sobre isso Hamilton diz: “Na verdade, porém, quase toda família polígama do AT sofrem as mais desagradáveis e facciosas experiências precisamente por causa desta relação ad hoc. As lutas domésticas que se seguem são devastadores[8]”.
Tendo considerado isso, podemos concordar com Krell, quando fala sobre a situação de Lameque:
“A Bigamia era comum no Oriente Médio Antigo, mas nunca foi o desejo de Deus (cf. 2:24; Mateus 19:4-5). Deus o permitiu, no entanto, como fez com muitos outros costumes que Ele desaprovava (por exemplo, o divórcio, concubinas casamento, poligamia, etc), mas ele não estava satisfeito com esta violação da aliança de casamento[9]
Essa insatisfação divina é claramente observada por acontecer na família daquele que fora lançado para fora da presença de Deus. Sua distância de Deus fez de sua família a norma e regra para se viver e conviver diante de uma sociedade criada por eles e para eles. A questão aqui é claramente a visão egocêntrica e dominadora do homem sobre a vida social e matrimonial. O homem que no passado teria optado por dar ouvidos a sua esposa ao invés de Deus é agora um dominador violento e brutal. A degradação do pecado passa a atingir níveis lamentáveis.
c. Lameque: Retribuição desnecessária:
A descrição que Moises faz de Lameque é lamentável: Não apenas trata-se de um homem dominador em sua casa, mas um retribuidor irrefreado agindo segundo as leis do seu coração destituído de Deus. Observe a opinião de Kidner sobre o assunto:
“A canção de sarcástico desafio de Lameque revela rápido progresso do pecado. Enquanto Caim havia sucumbido a ele (7), Lameque exulta nele; enquanto Caim tinha procurado proteção (14,15), Lameque olha à sua volta em atitude de provocação: a selvagem desproporção entre matar um simples rapaz e uma simples ferida, constitui o ponto determinante de sua jactância (24)[10]
…matei um homem: A descrição de Lameque é fria e direta. O assassinato nas mãos de Lameque parece ainda mais pesado do que fora com Caim. Alguns comentaristas entendem que o texto não fala da crueldade de Lameque, mas de sua atitude de defesa para com sua família. Sailhamer, por exemplo, afirma:
“Para demonstrar que ele não tinha derramado sangue inocente, Lameque apela ao fato de que ele havia matado um homem por ter sido ‘ferido’ (lepsis) e ‘machucado’ (lehabburati). Ele não ‘aborrece a seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal’ (Dt.19.11) como Caim tinha feito, mas ele fundamenta seu recurso no conceito da defesa pessoal[11]”.
Em outras palavras, a atitude de Lameque aos olhos de Sailhamer, Lameque agiu em legítima defesa, o que não parece nada claro no texto. É digno de nota que o teor do texto sugere que Lameque estivesse promovendo a vingança com a intensidade que lhe era aceitável. A idéia de Sailhamer, fundamentada na possibilidade de que se tratasse de uma briga em defesa da família, além de não ter lugar no contexto não condiz com a terminologia usada por Moisés.
O termo para ferir (hb. petsa) é usado por Moisés na descrição da Lex Taliones, observe: “Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Ex.21.23-25). O termo é uma descrição de um machucado, ferimento, ou até mesmo chagas (Jo.9.17). A idéia desse texto é exatamente refrear atitudes como a de Lameque, que em sua resposta à ofensa que sofreu, um ferimento, respondeu com o assassinato (hb. harag). Se Lameque tivesse respondido à ofensa (ferimento) à mesma altura, sua atitude teria sido ao menos nobre. Entretanto, sua violência em resposta demonstra a vingança usurpada de Deus e o exercício da retaliação.
…um jovem: A tentativa de defesa de uma ação em legítima defesa de Lameque tem sua completa derrota na continuidade da leitura do texto: “matei… um jovem por que me pisou”. Se o ferimento fosse feito por um conflito, e Lameque, em resposta a isso, acabasse por matar tal homem, que justificaria a morte desse jovem? Outro detalhe que parece desfavorecer por completo é a identificação da idade desse jovem. O termo hebraico usado aqui (hb. yeled) é usado em Gênesis para descrever um menino recém desmamado (Gn.21.8), uma criança (21.14; 33.5, 14) e filhos de modo mais genérico (Gn.30.26; 32.22; 33.2). Nada no uso desse termo sugere alguém hábil a defender-se para que se sugira que tal “jovem” tivesse envolvido em uma briga com Lameque, ou estivesse a ameaçá-lo ou a sua família, para que se justificasse conceituar essa cena como um ato de legítima defesa.
Outro detalhe que deve ser considerado é a ação desse “jovem” para com Lameque: “um jovem por que me pisou”. A ARA optou por traduzir o termo hebraico usado aqui (hb. chabbuwrah) como algo tão insignificante como um pisão (cf. Is.1.6; 53.5 – pisaduras). A verdade é que o termo pode ter uma conotação um pouco mais agressiva do que apenas um pisar em outrém, pois o termo também é usado na descrição de Moisés da Lex Taliones: “Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Ex.21.23-25).
Em Provérbios o termo é usado com o sentido de vergão, como o resultado de uma ferida feita cuja marca fica na pele (Pr.20.30). Ainda assim, não encontramos na ação dessa criança algo que tenha sido digno de assassinato. A julgar pelo avanço dos efeitos do pecado na raça humana (Gn.6), é visível que Moisés está a apresentar o declínio da humanidade na vida isenta de Deus: Caim assassinou por inveja; Lameque por orgulho e vanglória. Lameque desce a um nível ainda mais desprezível que seu ancestral Caim: Caim lamentou por seu pecado, teve medo e por auto-comiseração buscou em Deus recurso para sua sobrevivência; Lameque se orgulhou de ser assassino, não teve piedade e zombou da proteção de Deus a Caim e se fez valente diante de sua própria sorte. Deffinbaug concorda com isso, observe:
“Lameque nos leva ao ponto da história do homem onde o pecado não é apenas cometido descaradamente, mas com prepotência. Ele se vangloriou de seu assassinato para as suas mulheres. Mais que isso, ele se gabou de que seu pecado foi cometido contra um rapaz que simplesmente o ferira. Este assassinato foi brutal, ousado e vão[12]
Jonatas Edwards completa:
Com sua fala as suas esposas, Lameque demonstra sua impenitência, presunção e grande insensibilidade. Quando Caim assassinou seu irmão, sua consciência o atormentou grandemente; mas Lameque com grande soberba, ignora todo o remorso[13].

2.         Graça Inesperada:

É interessante que ainda no relato da descendência de Caim pudéssemos encontrar algum aspecto positivo que pudesse ser louvável. Numa família cercada por egos inflados e prontos ao assassinato, nós não esperaríamos encontrar virtudes dignas de atenção. Observe o que Deffinbaug diz:
“Certamente nada de bom poderia vir de tal homem. E mesmo assim, é da sua descendência que vêm as grandes contribuições culturais e científicas. Um filho tornou-se o pai dos pastores nômades, outro foi o primeiro de uma linhagem de músicos, e outro foi o primeiro dos grandes trabalhadores em metal. Precisamos fazer uma pausa para observar que mesmo o homem em seu pior estado não está desabilitado a produzir aquilo que é considerado benéfico à raça humana[14]
Esse aspecto da humanidade é interessante: Ainda no seu mais depravado estado, na qual todas as suas faculdades estão maculadas pela presença do pecado, ainda há um lampejo de brilhantismo artístico e profissional que revela a presença e a existência de um Ser Supremo e Criador. Na descendência de Caim vemos exatamente isso.
Alguém poderia dizer que toda sua produção era orientada para o mal, que suas músicas seguiam as notas do canto de Lameque às suas esposas, entretanto nada no texto favoreceria essa noção. A apresentação de Moisés sobre os ofícios dos descendentes de Caim não são analisados, apenas apresentados sem qualquer descrição de favoritismo ou preterição. O que podemos notar é que todas as descrições são apresentadas com imparcialidade de tal modo que não é possível se considerar uma em preferência a outra. Ou seja, não se pode afirmar no malefício da música da descendência de Jubal sem rejeitar a pecuária de Jabal ou o uso da serralheria de Tubalcaim.
É bem verdade que se sugere que a manipulação de metais teria sido no futuro usada para produção de armas usadas para assassinato. Do mesmo modo que a música teria sido usada para a adoração de deuses pagãos. Em nossa sociedade esse fato não é diferente: o desenvolvimento científico está claramente atrelado ao desenvolvimento bélico do mesmo modo que a música atrelada à sensualidade. Entretanto, não se pode dizer que o meio tenha determinado o fim, mas que o uso do meio tenha pervertido o algo essencialmente neutro, como música, ciência e tecnologia.
Lembre-se que todos esses instrumentos (música, ciência, tecnologia) podem e são usados para conceder Glória a Yahweh como Deus Criador. A música tem sido o instrumento cristão de louvor desde seus primórdios, mas mais recentemente tanto ciência como tecnologia tem se aliado ao modo de louvor a Deus. Com a tecnologia vemos o avanço das ferramentas de estudo, pesquisa, produção acadêmica do mesmo modo que com a ciência vemos os relatos antigos de Yahweh confirmados pelo estudo contemporâneo. Segue-se que, a julgar pela nossa experiência, entendemos que não é a profissão de Jubal essencialmente ruim, bem como a de Jabal e Tubalcaim, ainda que, em função dos investimentos e desenvolvimentos destes, muitos males foram produzidos na humanidade.

B.     A Genealogia de Sete

É muito interessante o modo como Moisés nos apresenta a história da humanidade: Ele claramente opta por apresentar separadamente a história dos homens que se dedicaram a Yahweh em contraste aos que resolveram viver longe dele. Ainda que Moisés possa identificar na genealogia de Caim algumas virtudes profissionais e artísticas, é na descendência de Sete que encontramos claras manifestações da Graça de Deus.
Na descendência de Sete encontramos três personagens que merecem nossa atenção: Enos, por sua descrição de que a partir dele passou-se a invocar o nome de Yahweh; Enoque, pois dele é dito que andou com Deus; e Noé, pois nele repousa a expectativa da libertação da maldição da Queda.

1.         Enos: Início da Adoração de Yahweh

O nome de Enos não traz em si mesmo nada de especial: O significado básico do seu nome é “homem”, e é aplicado no AT em referência a alguém do sexo masculino (Is.8.1; 13.12), como descrição da humanidade (Dt.32.26; 2Cr.14.11; Jó.4.17) e em referência ao filho do filho de Eva que foi considerado substituto de Abel.
Entretanto, é interessante que alguns comentaristas, como Keil & Delitzsch, defendem que o nome de Enos deriva de um verbo que significa ser fraco, frágil o que designa a sua condição frágil e mortal. Sobre o assunto, ainda acrescenta que “neste nome, portanto, o sentimento e o conhecimento da fraqueza humana e sua fragilidade foram expressos[15].
…invocar o nome do Senhor: Como podemos entender essa expressão? Já se tem dito ao menos três possibilidades para se entender essa expressão: (1) como se os descendentes de Enos passaram a se chamar pelo nome de Yahweh; (2) como se nessa época iniciou-se a proclamação de Yahweh como Deus Criador e Redentor; (3) que nessa época se iniciou a adoração a Yahweh.
  1. Ser chamado pelo nome de Yahweh: Jonatas Edwards sugere que a tradução correta dessa expressão é “Então os homens passaram a serem chamados pelo nome do Senhor”. Em explicação à sua preferência Edwards complementa: “então eles começaram a se chamarem, e a seus filhos, pelo Seu nome, o que significa que eles se entendiam como povo de Deus”. Há certo valor nessa opinião, visto se demonstrar tal distinção entre os descendentes de Caim e de Sete. Essa opinião é favorecida pelo contexto e tem o aval critico de diversos autores cristãos. Edwards, ainda, sobre o assunto diz: “Eu tenho dito, que o povo de Deus é abertamente distinguido do distorcido e apóstata mundo da posteridade de Caim e daqueles que estavam com ele, por se apresentarem à sociedade de modo distinto, sendo chamados filhos de Deus, enquanto os outros se chamavam filhos dos homens[16]”. Essa visão, certamente favorece a leitura de Gn.6 de modo natural e claro, sem depender de tradições estranhas que falam sobre a interação de seres angélicos com seres humanos. Adam Clarke defende a mesma opinião: “os homens começaram a chamar-se pelo nome do Senhor, essas palavras demonstram que no tempo de Enos os verdadeiros seguidores de Deus começaram a distinguir-se, e serem distinguido por outros, pela denominação de filhos de Deus[17]”.
  2. Adorar a Yahweh: Albert Barnes sugere que tal expressão esteja relacionada à adoração pública de Yahweh, como Deus digno de adoração, observe: “A solene invocação de Deus por Seu nome próprio com oração e louvor pública e social é o sentido mais usual da frase diante de nós agora, e é para ser adotada assim a menos que exista algo no contexto ou nas circunstâncias do texto que demande outro significado[18]”. Keil & Delitzsch concordam com Barnes: “Aqui temos uma descrição do início da adoração a Deus, que consiste em oração, adoração, agradecimento ou o reconhecimento e celebração da Misericórdia e Auxílio de Yahweh[19]”. Walter Elwell, de modo similar, entende que o texto fala da adoração pública a Yahweh. Para ele o texto trata da inauguração da verdadeira adoração a Yahweh (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25) [20]. Wlatke entende que pelo fato de Enos significar fraqueza, fragilidade, a humanidade voltou-se para Deus em adoração (Sl.149.6) [21].
  3. Proclamar a Yahweh: Ross opta por ver nessa expressão da proclamação do nome de Yahweh[22]. Uma vez que o termo hebraico “shem” (nome) é seguida do nome próprio Yahweh, e que o mesmo termo é empregado para descrever o caráter ou atributos de uma pessoa (Is.9.6), pode-se supor que o texto trata da proclamação da Pessoa e Caráter de Yahweh.
Seja como for, o que fica evidente é importante lembrar o leito que nenhuma dessas ações exclui as outra. É bem possível que todas essas fizessem parte do conceito de invocar o nome do Senhor. Contudo, temos que considerar que a adoração a Yahweh é anterior a Enos, pois tanto Caim quanto Abel já ofereciam sacrifícios ao Senhor, e certamente entendemos isso como um ato de adoração. Ou seja, se adoração abrange todos os seus aspectos temos que entender que tal não se inicia em Enos. Se há, porém, distinção entre a ação de Abel e Enos, não temos clareza de qual é tal diferença. Portanto, dizer que esse “invocar” é estritamente adoração não me parece aceitável com o contexto.
Por outro lado, ela é perfeitamente aceitável no conjunto de pessoas que passam a se considerar “filhos de Deus”, ou aquele grupo que se considera pertencente a Ele. É possível inferir que a fé demonstrada por Abel, e provavelmente aprendida com Adão, foi mantida na genealogia de Sete e que a partir daquele ponto, os homens que mantinham a adoração verdadeira a Yahweh, isto é, de acordo com as expectativas divinas, passaram a se chamar pelo nome de Yahweh. Nada de conflitante há nessa proposta.
Há de se dizer, que a idéia de Ross é certamente interessante: A partir de Enos se passou a proclamar a Yahweh. É bem verdade que diante do todo das escrituras a proclamação é sempre antecedida pela adoração daqueles que são filhos de Deus. Portanto, a idéia de Ross não oferece qualquer obstáculo às idéias anteriores. Mas, há qualquer referência a essa idéia no texto? Provavelmente não. Como Elwell já demonstrou o termo é usado em expressões similares como demonstração de verdadeira adoração (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25), e em nenhum desses versos sugere qualquer idéia de proclamação.
A idéia de ser chamado pelo nome de Yahweh, provém da terminologia do termo hebraico, que também trás a idéia de nomear, como vemos no relato da criação (Gn.1.5; 8, 10; 2.19,20 etc) e em outras situações (3.20; 4.17, 25 etc). A própria LXX traduz o termo hebraico com o termo grego “epikaleö” no presente do infinitivo na voz média, que seria traduzido “a passaram a ser chamados”, como sugere a tradução de Edwards. Entretanto, tal possibilidade não se harmoniza com as outras ocasiões que o termo hebraico é utilizado em Gênesis para descrever uma ação de adoração (Gn.12.8, 13.4; 16.13; 21.33; 26.25). Portanto, é seguro afirmar que o texto fala sobre a manutenção da verdadeira adoração entre os descendentes de Sete, muito embora as outras possibilidades pudessem acompanhar e fazer parte dela. Com isso, entendemos que a idéia da adoração feita por Abel associou-se o “invocar” o nome de Yahweh, como uma forma cultual e pública de adoração.
…Todos os dias de Enos: Como todos os personagens apresentados na genealogia de Sete, mesmo Enos um homem que marcou o início de uma era de consagração a Deus na história da humanidade não esteve isento de sofrer dos malefícios da queda: ele também  veio a falecer (hb. muwth). Esse é o verbo mais usado nas genealogias, e seu uso não é acidental: a repetição desse termo para descrever a situação dos homens diante da sua própria humanidade corrompida é um lembrete divino de sua ordem dada a Adão: “Certamente morrerás”. Após a Queda, nem mesmo a obediência pode retirar do homem o destino da morte, exceto se Deus agir milagrosamente, como faz com Enoque.

2.         Enoque: Vida com Deus

Como já temos demonstrado o nome de Enoque significa “dedicado, consagrado” e na família de Sete isso certamente indica que tipo de consagração e dedicação esse home teve. Sobre ele Clarke atesta: “O nome do patriarca, Enoque significa instruir, iniciar, dedicar. De sua conduta subseqüente estamos autorizados a acreditar que era, desde cedo, instruído nas coisas de Deus, iniciado na adoração de seu Criador, e dedicado ao seu serviço[23]
A história de Enoque narrada em Gênesis não tem grandes detalhes e especificações: à semelhança de todos os personagens apresentados, Enoque nasce, vive muitos anos, tem filhos e filhas. Entretanto, duas declarações sobre Enoque merecem nossa atenção: (1) Andou Enoque com Deus (v.22, 24); (2) E já não era, por que Deus o tomou para si. Essas duas breves sentenças descrevem um grande homem de Deus no passado que serve de modelo para nós.
Andou Enoque com Deus: A idéia de andar com Deus parece por demais abstrata uma vez que a comunhão com Ele havia se rompido no Éden, e que os passeios vespertinos já não mais aconteciam como antes. Contudo, Enoque parece ter sido agraciado por Deus com Sua constante companhia. Gill, sobre o fato de Enoque andar com Deus, diz: “Ele caminhou em nome e temor de Deus, segundo a sua vontade, em todos os mandamentos e preceitos do Senhor fez então conhecido, ele caminhou pela fé nas promessas de Deus, e na expectativa do Messias, o descendente prometido; andou em retidão e sinceridade, como na visão de Deus[24]”.
A idéia de uma vida santa não pode estar ausente dessa expressão, e certamente Gill tem razão quando diz que Enoque vivia em conformidade com a Vontade de Deus e em obediência a Ele. A descrição de sua intimidade como Deus é tão simples e convidativa que nos estimula a buscar viver como ele viveu, um modelo de vida em meio à morte.
Sobre ele Barnes acrescenta:
“Andar com Deus implica em comunhão com ele em pensamento, palavra e ação, e opõe-se nas Escrituras ao andar contrário a Ele. Nós não temos a liberdade de se inferir que Enoque foi o único nesta linha, que temia a Deus. Mas, temos certeza de que ele apresentou um exemplo eminente de que a fé que purifica o coração e agrada a Deus. Ele fez um avanço notável sobre a realização dos tempos de seu pai Sete. Naqueles dias, eles começaram a invocar o nome do Senhor. Agora, a comunhão dos santos com Deus atinge sua forma mais elevada – a de andar com ele, fazendo a sua vontade e desfrutar de sua presença em todos os aspectos da vida[25]
Há ainda nesse verso um indício interessante: Ao que tudo indica a tradução da ARA não é apropriada para descrever a história de Enoque nesse verso. A ARA assim verte o texto: “Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas” (v.22). A idéia que se obtém dessa leitura é que o andar com Deus de Enoque era uma descrição de sua pessoa, ao passo que a descrição de tempo é apenas um referencial para a identificação do seu descendente Matusalém. Entretanto, a NVI (em inglês: NIV, NET CJB) opta por verter o texto levemente diferente: “Depois que gerou a Matusalém, Enoque andou com Deus 300 anos e gerou outros filhos e filhas”. Segundo essa versão, a descrição de tempo fala sobre o período que Enoque andou com Deus. Matthew Henry, que é favorável à essa leitura, atesta:
“Ele andou com Deus trezentos anos, enquanto ele continuou neste mundo. O hipócrita não ora sempre, mas o verdadeiro santo que age a partir de um princípio, e faz da religião a sua escolha, irá perseverar até o fim, e caminhar com Deus, enquanto ele vive, como aquele que espera viver para sempre com ele[26]
A idéia da perseverança e manutenção de uma vida orientada a devoção e vida com Deus é certamente um forte exemplo de como devemos levar nossa vida diante de Deus. Entretanto, tal descrição nos levanta uma pergunta: Teria Enoque algum mérito nessa vida que levou com Deus, ou seria isso graça? Aqueles mais inclinados a pensar na salvação e vida com Deus centrada no esforço encontram no exemplo de Enoque um referencial de perseverança, entretanto, o texto traz uma forte conotação reciprocidade entre Enoque e Deus. Ou seja, enquanto Enoque anda com Deus, Deus anda com Enoque. Embora o verbo tem Enoque por sujeito, o andar era uma cooperação entre Deus e Enoque. Até mesmo o arminiano Adam Clarke reconhece esse fato:
“Aqueles que estão familiarizados com o original, irão perceber claramente que a sentença tem essa força. Um verbo na conjugação chamada hithpael implica num ato de reciprocidade, o que um homem faz a si mesmo: aqui podemos considerar Enoque recebendo uma instrução piedosa, e a influência divina por meio dela, resultando no fato de que ele é um trabalhador com Deus, e, portanto, toma a resolução de andar com o seu Criador, que ele não pode receber a graça de Deus em vão[27]”.
Por um lado existe a firme decisão de se viver para Deus, mas essa decisão aconteceu um dia em função da ação de Deus na sua vida. Não podemos supor que Enoque passou a uma vida de completa devoção por sua própria força e habilidade, pois tal referencial não é encontrado nas escrituras. Ou seja, a atitude de andar com Deus é derivada da ação de Deus se fazer manifesto e presente em sua vida. Os tradutores da NET Bible, sobre isso atestam: “Em Gn 5:22 a frase sugere que Enoque e Deus ‘se davam bem’[28]”. Portanto, há um relacionamento entre Enoque e Deus de tal modo que há interação entre eles, movimento e desenvolvimento. Por isso, há manutenção e durabilidade. As escrituras não ensinam que o andar com Deus é o cumprimento de uma rotina religiosa, mas um viver diário com Deus. Tal idéia já era encontrada na LXX, que optou por traduzir o “andar com Deus” por “agradar a Deus” (Gr. euarestéö). John Sailhamer sobre isso diz:
“A frase ‘andou com Deus’ claramente significa algo importante para o autor, pois ele usa a mesma expressão para descrever Noé como um ‘um homem justo e reto entre os seus contemporâneos’ (6.9), e Abraão e Isaque como servos fiéis de Deus (17.1; 24.40; 48;15). Seu uso aqui demonstra que o autor vê nela a razão pela qual Enoque não morreu. Enoque é ilustrado como aquele que não sofre o destino de Adão (certamente morrerás) por que, ao contrário dos outros, ele ‘andou com Deus’[29]
Uma das perguntas que fazemos para essa genealogia em Gênesis é por que razão o autor optou por afirmar a morte de todas as pessoas que apresenta? Como é observado em outras genealogias bíblicas, a idéia da morte está implícita, mas não declarada. Por que Moisés faria isso aqui?
Para responder a essa pergunta podemos observar dois detalhes: (1) A fidelidade de Deus – Quando voltamos nossos olhos para a promessa que tinha feito a Adão de que a desobediência os levaria à morte, e observamos a realização concreta desses fatos nessa genealogia, entendemos que Deus é Fiel à Sua Palavra, e a levará a cabo diante de todos; (2) A Graça de Deus – Ler Gênesis 5 é como ouvir a marcha fúnebre: viveu, teve filhos e filhas e morreu, morreu. A fatalidade que assombra a humanidade é descrita de maneira simples e direta: “A vida é como a fumaça, nem bem se fez, se desfaz, e a cada instante que passa é um passo a menos e a mais, na direção do fim, frio feroz, o fim de todos nós” (João Alexandre, Fim de Todos nós). Por outro lado, vemos na história de Enoque um lampejo gracioso de Deus em não deixá-lo à morte: Enoque não morreu. Tentando responder a pergunta já lançada acima, Sailhamer diz:
“A resposta não é difícil de encontrar no capítulo 5, por que nesse capítulo apenas uma dos patriarcas, Enoque, não morreu, O número total de anos foi apresentado, como nas outras genealogias, mas apenas aqui há uma exceção: Enoque já não era, por que Deus o tomou. Em outras palavras, o autor propositadamente descreve a morte de cada um dos patriarcas no capítulo 5 para destacar e chamar a atenção do leitor para o caso excepcional de Enoque[30]
Esse evento certamente é um evento excepcional: Mesmo outras pessoas que viveram com Deus, e foram descritas como pessoas que “andaram com Deus”, como Noé, não foram arrebatadas à presença de Deus. É bem provável que com esse evento Deus esteja a nos ensinar que o desejo de Deus é prefigurado em Enoque: Ele quer que todos os Seus Filhos, que andam com Ele, vivam Eternamente com Ele.
Outro detalhe que deve ser lembrado, é que é bem possível que Deus está nos ensinando que “andar” com Deus, ou viver com Ele, é muito mais do que obedecer seus mandamentos. Em Dt.30.16 lemos: “Porquanto te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir”. Essa clara distinção entre andar de acordo com Deus e obediência ao que Deus diz é fundamental para se entender que “andar com Deus” está além da obediência e inclui amor a Yahweh como nosso Deus e Senhor. Certamente, aquele que ama a Deus acima de todas as coisas e vive em relacionamento com Ele o Obedecerá. Mas, Enoque ilustra o fato de que a obediência cega e desassociada de outras virtudes espirituais não é garantia de vida com Deus.
Enoque, o homem que andou com Deus (Gn.5.22), Noé, que também andou com Deus (Gn.6.9), Abraão, que creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça (Gn.15.6) são exemplos claros, anteriores a Lei, que são apresentados por Moisés como modelos de fé e confiança em Deus.
…e já não era: Essa frase de difícil tradução tem levantado algumas perguntas sobre o que de fato aconteceu com Enoque. Mais três opções são vistas nas traduções em português para essa expressão: (1) não foi encontrado (NVI); (2) não apareceu mais (ACF); (3) e já não se viu (ARC). A versão ARA optou por verter “e já não era” seguindo a KJV. A LXX verte de modo similar a NVI: “e não era encontrado” (kaì ouk ëupisketo). O Targun de Onkelos e o de Jerusalém também carregam a idéia da ARA e KJV. Entretanto, o Targun supostamente de Jonatas, diz: “e ele já não estava entre os peregrinos na terra”. Em todas existe a idéia de que Enoque deixou de estar presente, pois não foi encontrado, não apareceu em nenhum outro lugar e por isso, já não era visto. Todas essas idéias são tentativa de se traduzir a partícula negativa (hb. ayin) com o sufixo pronominal. Ou seja, ao invés de afirmar que Enoque morreu, Moisés diz que ele não estava mais presente. Mas, uma pergunta surge aqui: Para onde foi Enoque?
porque Deus o tomou para si: A seqüência do texto deixa claro: Deus o tomou para si, uma expressão rara no Antigo Testamento que marca uma expectativa judaica de futuro. Veja o caso, por exemplo, do Salmo 49.15: “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si”. A expressão usada em referência a Enoque, é nesse Salmo explicada como a redenção da alma do salmista, o que favorece a idéia de que Enoque foi remido por Deus e recebido por Ele em Sua Presença. Fato similar acontece no Salmo 73.24: “Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória”. Nesse verso a expressão “me recebe” é exatamente a mesma encontrada na descrição de Enoque em Gênesis. Essa convicção de que uma vida debaixo da orientação de Deus implica em um vida futura com Ele parece muito neotestamentária, entretanto, já é vislumbrada profeticamente no exemplo de Enoque e na expectativa dos salmistas.
Diferente do que se podia esperar na descendência de Adão, um homem entre os seus não morreu, mas foi trasladado para a Glória com Deus eternamente. O autor de Hebreus nos explica isso um pouco melhor: “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus” (Hb.11.5). Para esse autor, o exemplo de Enoque demonstra que o essencial em sua vida foi o exercício da fé seguida de uma vida que agrada a Deus (como sugere a LXX). O termo que o autor de Hebreus usa para descrever a ação de Deus em Enoque é “metatíthemi”, o termo que a LXX usa para traduzir o termo hebraico “laqach”, cujo sentido básico é receber, tomar. Provavelmente pelas implicações que se via nessa ação divina de se tomar a Enoque para si, a LXX utilizou um termo que significa basicamente mudar de posição, ser recebido. O termo é usado em outros 15 lugares na LXX, normalmente com a idéia de mudar. Considerando que a ação divina em Enoque foi mudá-lo de plano, do terreno para o espiritual, o termo também tem conotação de transformação (Jd.4) ou o ser trasladado de Hebreus.
A idéia é clara aqui: Enoque foi chamado à presença de Deus e no relato de Gênesis ele é o único que não sofreu da morte como malefício da punição de Adão. Nesse relato temos uma firme expectativa: Aqueles que genuinamente vivem com Deus, com Ele viverão. É por isso que Deuffinbaug conclui:
“A morte chegou à descendência piedosa de Sete. Isto é repetido oito vezes no capítulo cinco. Mas Enoque é um tipo daqueles que verdadeiramente caminham com Deus. A morte não os tragará. Eles serão conduzidos à eterna presença de Deus, em cuja companhia viverão para sempre. A morte pode ser vista com naturalidade pelos verdadeiros crentes, pois seu aguilhão foi removido pela obra de Deus na morte de Jesus Cristo, o “descendente da mulher”. (Gn. 3:15)[31]”.

3.         Noé: Esperança em Deus

Como de costume, o nome hebraico de Noé (hb. noäh) é usado em um jogo de palavras com a sentença que se segue ao seu nome. É bem provável que o nome de Noé tenha alguma relação com o termo hebraico para descanso (hb. nuakh), mas, é certamente usado como paralelo do termo hebraico usado na ARA como consolo (hb. yenakhamenu).
Verdade seja dita, os dois termos não provêm da mesma raiz: nöah, como já demonstrado tem relação como nuakh, enquanto yenakhamenu provém da raiz nakham, que significa conforto. Entretanto, “as letras nun e heth juntas soam como o nome de Noé, formando uma paronomásia com o seu nome. Os termos não têm a mesma raiz verbal, e a conexão é apenas em função do som[32]”. Por outro lado, a idéia de um “descanso” do trabalho das nossas mãos, fruto da maldição divina, também se faz correlato com a idéia do nome de Noé. Uma vez que o nome de uma pessoa (hb. shem) descreve também seu caráter, vemos na nomeação de Noé a representação da expectativa apresentada na sentença que se segue. Portanto, em mais uma ocasião, Moisés brinca com as palavras para expressar uma verdade sobre a história da humanidade.
Este nos consolará dos nossos trabalhos: Noé é retratado por seus ancestrais como aquele sobre quem se repousa a esperança de libertação da maldição a que Yahweh havia submetido a terra. Essa esperança posta sobre Noé, não cumpriu-se como esperavam seus ancestrais, mas sabemos por usa história que ele foi um homem usado por Deus para salvar a humanidade, e ser instrumento da fidelidade de Deus para manutenção da sua promessa em Gn.3.15. A história de Noé, é uma história de recomeço, e será detalhada nos próximos capítulos.
O que se pode dizer com segurança é que a expectativa do descendente da mulher (que ainda não podemos chamar messiânica, nem cristã) era transmitida entre os descendentes de Sete, os que se entendiam como filhos de Deus, e viviam em adoração a Yahweh. Sem qualquer demonstração sobre a vida familiar desses personagens, sabemos que a família foi o cerne de sua transmissão de fé, visto que a mesma esperança que se tinha em Sete era vista em Noé, muito tempo depois. Essa tradição foi transmitida entre os familiares que mantiveram a revelação de Deus.

Conclusão

O que podemos concluir da história das duas genealogias? Que se não for a graça do Senhor na manutenção de um relacionamento especial com o homem, acompanhado de pessoas comprometidas com esse relacionamento, a humanidade está fadada ao fracasso moral e espiritual. Ainda que grandes desenvolvimentos possam surgir da impiedade, ela jamais é justificada. Sobre essa diferença, Deffinbaug diz:
“O que é que é enfatizado na linhagem de Sete? Nenhuma menção é feita a qualquer grande contribuição ou realização. Duas coisas marcaram os homens do capítulo cinco. Antes de mais nada, foram homens de fé (cf. Enoque, 5:18, 21-24; Lameque, 5:28-31). Estes homens olharam para trás e compreenderam o fato de que o pecado foi a raiz de seus problemas e pesares. E olharam à frente para a redenção que Deus havia providenciado através de sua descendência[33]